Comunidade “Mia Moglie” reunia mais de 30 mil homens, que publicavam imagens privadas e comentários ofensivos; denúncias levaram à exclusão e abriram investigações criminais
O Facebook removeu nesta semana o grupo italiano “Mia Moglie” (“Minha esposa”), após forte repercussão pública e milhares de denúncias. A comunidade, criada em 2019 e com cerca de 32 mil membros, funcionava como espaço para homens compartilharem fotos íntimas de mulheres sem consentimento, muitas vezes acompanhadas de comentários sexualizados e humilhantes.
Apesar de estar ativo desde 2019, o grupo ganhou movimentação apenas a partir de maio de 2025, quando começaram a circular imagens privadas de mulheres expostas sem autorização. O caso veio à tona após a denúncia da escritora e ativista Carolina Capria, que classificou o que viu como uma forma de “estupro virtual” e disse ter ficado “enjoada e assustada” diante das publicações.
A repercussão mobilizou milhares de usuários, que pressionaram a Meta (empresa responsável pelo Facebook) e também as autoridades italianas. Em pouco tempo, a Polícia Postal da Itália, especializada em crimes digitais, recebeu cerca de 2.800 queixas de vítimas, muitas delas relatando a devastação emocional causada pela exposição não autorizada.
Consequências legais
Na Itália, a divulgação de imagens íntimas sem permissão é considerada crime desde 2019, com penas que variam de 1 a 6 anos de prisão, além de multas que podem chegar a 15 mil euros. Segundo especialistas, os participantes do grupo podem responder não apenas por revenge porn, mas também por difamação, violação de privacidade e, em alguns casos, até pornografia infantil, caso sejam identificadas vítimas menores de idade.
A advogada Marisa Marraffino, especialista em crimes digitais, destacou que os envolvidos correm sérios riscos jurídicos: “Quem compartilha esse tipo de conteúdo não pode alegar inocência. A lei é clara e prevê responsabilização criminal.”
Críticas à Meta e pressão social
Partidos políticos italianos e entidades de defesa dos direitos das mulheres criticaram a demora do Facebook em agir. Para o Partido Democrático, o caso demonstra falhas graves de moderação. Já o Movimento 5 Estrelas e a associação Codacons cobraram mudanças urgentes na forma como a plataforma combate a violência digital.
Embora o grupo tenha sido derrubado, especialistas alertam que outros espaços semelhantes continuam ativos em diferentes plataformas, como o Telegram, evidenciando a dificuldade em frear a propagação desse tipo de violência.
O episódio reacendeu o debate sobre a responsabilidade das redes sociais na proteção das vítimas e a necessidade de respostas mais rápidas e eficazes diante da exposição não consentida de mulheres na internet.
Por: Lucas Reis
Foto: BBC