Criador de personagens irreverentes e cofundador de O Pasquim, Jaguar marcou gerações com ironia, crítica política e irreverência carioca
O Brasil perdeu neste domingo (24) uma de suas vozes mais afiadas e bem-humoradas. Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar, morreu aos 93 anos, no Rio de Janeiro, após três semanas internado com pneumonia no hospital Copa D’Or. Ícone do cartum e da crítica política, Jaguar deixa um legado marcado pela ironia, pelo olhar atento sobre o cotidiano e pelo espírito irreverente que ajudou a moldar o jornalismo alternativo no país.
Dos bancos ao traço irreverente
Nascido no Rio, Jaguar iniciou a carreira em 1952, como desenhista da revista Manchete. Ao mesmo tempo, trabalhava no Banco do Brasil, onde permaneceu por 17 anos. Incentivado — ou desencorajado — pelo cronista Sérgio Porto a manter a estabilidade do emprego bancário, só pediu demissão em 1974, anos depois de fundar O Pasquim. “Queria estar na redação nas horas mais animadas do dia”, justificava.
Foi Borjalo quem sugeriu o pseudônimo que ficaria para sempre ligado ao humor político brasileiro. Com a assinatura, nasceram personagens como Gastão, o Vomitador, Boris, o Homem-Tronco, e o ratinho Sig, todos carregados de ironia e crítica social.
O Pasquim: resistência em tempos de censura
Fundado em 1969, meses após o AI-5, O Pasquim tornou-se símbolo de resistência à ditadura militar. Ao lado de Tarso de Castro, Claudius Carlos Prósperi e Sérgio Cabral, Jaguar ajudou a criar um espaço de ousadia editorial, irreverência e crítica ao regime. Nomes como Ziraldo, Millôr Fernandes, Henfil e Paulo Francis também marcaram a trajetória do jornal.
O cartunista se orgulhava da ousadia do semanário. “Esperamos o AI-5 para abrir um jornal pra falar mal do governo! Seis meses depois, 80% da redação estava em cana”, lembrava, sempre com humor.
Memórias e irreverência
Além do traço crítico, Jaguar era conhecido pela boemia e pela criação da Banda de Ipanema, um dos blocos de carnaval mais tradicionais do Rio. Também publicou livros, como Átila, Você é Bárbaro (1968), Ipanema — Se Não Me Falha a Memória (2000) e Confesso Que Bebi (2001), em que misturava memórias pessoais e histórias de bar.
Mesmo em entrevistas, não poupava a si próprio. “Eu detesto desenhar! Minha inspiração é entregar o desenho, senão não me pagam”, dizia em 2009, à ABI.
Reconhecimento e polêmicas
Em 2008, recebeu indenização da Comissão de Anistia por perseguições durante a ditadura. O valor milionário e a pensão vitalícia provocaram críticas, que o decepcionaram. Ainda assim, Jaguar seguiu fiel ao estilo: rindo de si, dos amigos e da política.
Ao completar 80 anos, entre cirrose e câncer no fígado, manteve o humor diante da finitude: “O médico disse que eu não ia morrer em 20 dias. Falei: ‘Porra, mas que sacanagem! Já bolei todo o esquema, vou ter que reformular tudo de novo’”.
Por: Lucas Reis
Foto: Reprodução