Fundador do Master gravou vídeo em Londres, quando recebeu juízes de cortes superiores num evento patrocinado pelo banco
O fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou que o acesso ao Judiciário é “muito bem formatado”. A declaração foi dada em junho de 2024, em vídeo gravado para a série Grandes Temas, Grandes Nomes do Direito, da TV Conjur. O conteúdo foi publicado no YouTube em 21 de junho daquele ano.
Vorcaro falava sobre a “Suprema Corte”. Afirmou que ela existe para defender as leis, a Constituição, e precisa estar a par das opiniões populares. “O Judiciário brasileiro toma inúmeras e milhares de decisões diariamente. Sempre vai desagradar um certo grupo da sociedade. A gente tem mecanismos hoje muito fortes de controle em todas as esferas do Judiciário”, disse.
Assista (2min55s):
“A gente tem um processo de acesso ao Judiciário muito bem formatado. A gente tem juízes de qualidade em todas as esferas. Então, isso acaba gerando uma estabilidade do sistema judiciário para o nosso Brasil”, declarou Vorcaro.
O empresário também elogiou o Banco Central. Disse que o sistema financeiro brasileiro é “muito avançado, reconhecidamente avançado perante inclusive até países desenvolvidos no mundo”.
Sobre a autoridade monetária, afirmou que também é reconhecida como uma das mais avançadas em todo o mundo.
O vídeo foi produzido com o patrocínio do escritório de advocacia de Walfrido Warde (cujo logotipo aparece no fundo da tela), que, por um período, foi contratado por Daniel Vorcaro.
VORCARO EM LONDRES
Vorcaro gabou-se com a então namorada, a modelo Martha Graeff, de ter discursado diante de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e do STJ (Superior Tribunal de Justiça), em evento em Londres.
As mensagens, interceptadas pela PF (Polícia Federal) e às quais o Poder360 teve acesso, estavam no celular de Vorcaro, apreendido pela corporação na operação Compliance Zero.
O “Fórum Jurídico Brasil de Ideias”, organizado pelo Grupo Voto e realizado de 24 a 26 de abril de 2024, na capital britânica, teve patrocínio do Banco Master, que custeou a palestra do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. O vídeo para a TV Conjur foi gravado durante a viagem do empresário.
Em 24 de abril de 2024, 1º dia do fórum, Vorcaro avisou Graeff que havia chegado a Londres. Horas mais tarde, escreveu a ela: “Acabei de dar o discurso para ps [sic] ministros”, ao que ela responde: “Wowwww. O que está acontecendo aí? Que máximo. Queria ver tudo que você faz, sério. Vorcaro escreve: “Eu sou muito louco. Essa realidade. Todos os ministros do Brasil. Do STF, STJ etc. E euzinho discursando”. Graeff diz: “Muito louco amor. A sua vida. Tudo. Surreal. Parabéns”.
O Poder360 antecipou que, neste mesmo evento, houve uma degustação do festejado whisky Macallan em Londres. Além de Vorcaro, participaram nomes como o ministro do Supremo, Alexandre de Moraes, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O encontro foi realizado no George Club, um clube privado alugado para essas ocasiões e que está localizado na região de Mayfair, uma das áreas mais caras da capital britânica.
A degustação do whisky Macallan teve custo de US$ 640.831,88 (cerca de R$ 3,2 milhões no câmbio de abril de 2024), segundo documentos da organização do evento que integram o acervo encaminhado pela Polícia Federal à CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
O valor inclui a experiência de degustação do whisky Macallan, serviço gastronômico e de entretenimento no George Club.
Cerca de 40 pessoas participaram da degustação paga por Daniel Vorcaro. Entre outras, estas autoridades estiveram no evento:
- Alexandre de Moraes – ministro do STF;
- Andrei Rodrigues – diretor-geral da PF;
- Benedito Gonçalves – ministro do STJ;
- Ciro Soares – advogado de Daniel Vorcaro;
- Daniel Vorcaro – fundador do Master, hoje preso;
- Dias Toffoli – ministro do STF;
- Hugo Motta – presidente da Câmara;
- Paulo Gonet – procurador-geral da República;
- Ricardo Lewandowski – então ministro da Justiça.
Ao final do evento, todos os convidados receberam uma garrafa de whisky Macallan como presente. Não dos mais caros, mas uma edição especial. Os preços desse whisky vão de aproximadamente R$ 1 mil para o envelhecido por 12 anos e podem chegar a mais de US$ 100 mil para a versão de 72 anos, conhecida como “Genesis Decanter”. Leia mais nesta reportagem.
ENTENDA
O fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, firmou em 19 de março um acordo de confidencialidade com a Polícia Federal e com a PGR (Procuradoria Geral da República). A assinatura do documento é a etapa inicial para uma delação premiada. Ele é investigado por fraudes contra o sistema financeiro. Está preso na Superintendência da PF em Brasília.
A possibilidade de uma delação de Vorcaro expõe riscos a várias autoridades dos Três Poderes e de outras esferas em Brasília. O fundador do Master estabeleceu relações com ministros do STF e políticos. Parte dessas relações se firmaram por contratos com empresas dessas pessoas ou de seus familiares.
ALEXANDRE DE MORAES
A jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, disse que Vorcaro mandou mensagens ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), quando foi preso, em 17 de novembro de 2025. Em duas mensagens, Vorcaro perguntou: “Conseguiu bloquear?” Não ficou claro a que se referia a pergunta.
As mensagens estão no bloco de notas de um dos celulares de Vorcaro apreendidos pela PF. Não aparecem respostas de Moraes. O ministro negou que as mensagens tenham sido enviadas a ele.
A advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro e sócia do escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, recebeu R$ 80 milhões do Master por 22 meses de serviços prestados à instituição financeira. O contrato foi firmado em abril de 2025. Havia negociações na época para a compra do Master pelo BRB (Banco de Brasília).
DIAS TOFFOLI
O ministro Dias Toffoli, do STF, foi relator do caso Master na Corte de 28 de novembro de 2025 a 12 de fevereiro de 2026.
A Maridt Participações, do ministro e de seus irmãos, tinha ⅓ da propriedade do resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR). Vendeu parte disso para o fundo Arleen, controlado pela Reag, uma administradora de investimentos que era ligada ao Master, em setembro de 2021. Outra parte foi vendida à PHD Holding em fevereiro de 2025.
Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, o pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, é dono de um dos fundos que comprou cotas do Arleen.
Toffoli disse por meio de nota que nunca recebeu diretamente valores de Vorcaro e Zettel. Também afirmou na nota que só se tornou relator do caso Master depois da venda da participação da Maridt no Tayayá.
O ministro deixou a relatoria das investigações sobre o caso Master em 12 de fevereiro de 2026. O relator passou a ser André Mendonça. Toffoli se declarou suspeito para julgar a prisão de Vorcaro em 11 de março de 2026.
RICARDO LEWANDOWSKI
O advogado Ricardo Lewandowski foi ministro do STF de março de 2006 a abril de 2023, e ministro da Justiça de fevereiro de 2024 a janeiro de 2026, no governo Lula.
Lewandowski afirmou ter feito consultoria jurídica para o Master depois de se aposentar do STF. Não especificou o período.
Reportagem do Metrópoles disse que o escritório Lewandoski Advocacia manteve contrato com o Master de agosto de 2023 a setembro de 2025.
Lewandowski integrava o escritório até 17 de janeiro de 2024. Seus filhos Enrique de Abreu Lewandowski e Yara de Abreu Lewandowski continuaram como sócios. O Master pagava ao escritório R$ 250 mil mensais por consultoria jurídica. No período do contrato, pagou R$ 6,5 milhões.
BANCO CENTRAL
Representantes do Master tiveram 65 reuniões com integrantes da cúpula do BC desde a fundação da instituição financeira em 2018.
Houve 24 encontros nos 6 anos em que Campos Neto foi presidente (2019-2024). Os demais 41 encontros foram realizados em 2025 na presidência de Galípolo.
Segundo a PF, 2 funcionários do BC passavam informações ao ex-banqueiro:
- Paulo Sérgio Souza – ocupou o cargo de chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central;
- Belline Santana – ocupou o cargo de chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central.
