Exposição traça paralelos entre o Brasil contemporâneo e expedição do século 19

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O Brasil que o naturalista alemão Georg Heinrich von Langsdorff percorreu entre 1826 e 1829 segue cristalizado nos arquivos da Academia de Ciências da Rússia, em São Petersburgo. O país que existe hoje, nas mesmas regiões registradas em aquarelas e diários, é outra história.

Em cartaz na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo, a exposição “Langsdorff: A Expedição Fluvial 200 Anos Depois” quer colocar esses países frente a frente, à luz das emergências climáticas.

A missão de Langsdorff, cônsul do Império Russo no Brasil e homem de confiança do czar Alexandre 1º, percorreu mais de 13 mil quilômetros pelo interior do país, do Tietê ao Amazonas, pelas províncias de São Paulo, Mato Grosso e Grão-Pará, em três anos.

Foi uma das mais ambiciosas incursões científicas do século 19, que buscava identificar o potencial econômico e científico do interior do Brasil —e, paradoxalmente, das menos lembradas. Mas esse relativo obscurecimento histórico tem explicações.

A expedição teve duas etapas. A primeira, terrestre, contou com os registros do pintor alemão Johann Moritz Rugendas, cujo trabalho circulou amplamente e entrou para a história da iconografia brasileira. A segunda —a fluvial, que percorreu rotas mais inéditas e que esta exposição revisita— teve o seu acervo enviado para a Rússia de maneira desordenada e chegou a ficar perdido nos arquivos imperiais por cerca de um século.

Não faltaram reveses: além da morte do czar que encomendou a pesquisa, Langsdorff contraiu malária durante a travessia e teve graves sequelas mentais, incluindo amnésia e desorientação temporal, o que impediu a devida organização do material despachado.

A equipe de pesquisa reunia o botânico Ludwig Riedel, o astrônomo Néster Rubtsov, o pintor Aimé-Adrien Taunay, e Wilhelmine von Langsdorff, esposa do líder da missão e única mulher do grupo. Mas é Hercule Florence, jovem artista e inventor franco-monegasco de 22 anos, quem se tornaria sua testemunha mais duradoura. Quando Langsdorff adoece e deixa de escrever, Florence segue até o fim; e é seu relato que sustenta a memória completa da jornada.

“Hercule é usado como principal mote da exposição porque ele é o único que deixa o relato completo da viagem”, diz Francis Melvin Lee, curadora do Instituto Hercule Florence, que realiza a exposição ao lado da Documenta Pantanal, em parceria com a BBM-USP, o Instituto Moreira Salles e o Centro Maria Antônia da USP.

A proposta da mostra recusa a leitura celebratória do bicentenário —a expedição é tratada, nas palavras do projeto, como um “memento mori”, expressão que significa “lembre-se de que você vai morrer”.

Os manuscritos de Florence, que fazem parte do seu compêndio biográfico “L’Ami des Arts Livré à Lui-même” —ou o amigo das artes deixado por conta própria—, dão detalhes preciosos sobre o cotidiano do trajeto monumental que partiu de Porto Feliz, no interior paulista, em junho de 1826, e são o arquivo que ancora a mostra na USP.

Suas observações detalhadas acompanham os desenhos e aquarelas que registram as coletas botânicas e zoológicas feitas pelo grupo, além de encontros com povos originários do percurso explorado, como os bororo e os munduruku.

O esforço de construir o contraste entre passado e presente se concentra mais forte na segunda sala da exposição: paisagens catalogadas pelo artista-viajante são contrapostas com fotografias contemporâneas das mesmas regiões.

Aí entram olhares críticos como os do fotodocumentarista Lalo de Almeida, da Folha, que tem extenso trabalho sobre a Amazônia e o Pantanal. Seus cliques sobre os grandes incêndios que devastam o bioma são comparados a registros de queimadas feitos por Florence no século anterior.

Em paralelo, uma série de fotos de João Pompeu dedica-se à reconstrução de paisagens nos ângulos e locais preservados pelo europeu. As comparações evidenciam as mudanças drásticas ocorridas nesses duzentos anos, da transformação metropolitana de Santarém, no Pará, às mudanças na foz do rio Piracicaba depois da construção da usina hidrelétrica de Barra Bonita.

A escolha dos fotógrafos —que inclui ainda David Drew Zingg e Paula Sampaio, mineira radicada em Belém do Pará— enfatiza uma vontade de não disfarçar problemas.

“Como no trabalho da Paula, que é ativista e tem um forte trabalho social, tudo ali é para deixar claro o efeito desses dois séculos nas paisagens e na natureza. Em vez de mostrar a diversidade que ainda existe, queremos escancarar os efeitos dos conflitos e devastações”, diz Francis. “É um confronto de visões, para pensarmos no passado, mas com os olhos no futuro.”

Para além da exposição na BBM-USP, a partir de maio o projeto se estende em mostra de cinema ambiental com curadoria de Mônica Guimarães, coordenadora da Documenta Pantanal. Ao final, acontece o lançamento de três publicações baseadas nos manuscritos originais de Hercule, nos dias 22 e 23 de junho —exatamente 200 anos após a partida de Porto Feliz.



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