Se você passasse pela porta de um bar e encontrasse um aviso de que certos clientes não são bem-vindos, provavelmente reconheceria ali uma forma elementar de discriminação. Foi o que ocorreu no Rio de Janeiro: um bar anunciou que não receberia americanos e israelenses.
Na minha memória desfilaram imagens de outros avisos do mesmo gênero, vindas de um passado que pensei que não se repetiria: “não servimos a negros”, “chineses não são bem-vindos”, “não se aceitam mulheres desacompanhadas”, “não atendemos judeus”.
O episódio poderia ter terminado como mais um caso de sanção administrativa —houve multa—, mas seguiu outro caminho. Uma campanha de apoio via Pix cobriu o custo e gerou excedente. Consumidores e seguidores aumentaram. Uma defesa moralizada do boicote foi assumida em massa por progressistas nas redes.
A exclusão foi recompensada.
Boicotes dirigidos a judeus, contudo, não são algo banal. Os precedentes históricos são sombrios. Na última vez que se tornaram socialmente aceitáveis em larga escala, o desfecho é conhecido. Desafiar deliberadamente essa memória torna o gesto ainda mais simbólico.
Interessam-me, do episódio, duas coisas. Primeiro, ele desmonta uma narrativa confortável: a de que a intolerância seria um vício típico dos conservadores e da direita, enquanto o campo progressista encarnaria, por definição, abertura, flexibilidade e cosmopolitismo. A realidade é menos complacente. A tolerância não é identidade moral, não depende de quem somos, mas do que estamos dispostos a permitir quando discordamos.
A teoria clássica diz que tolerar não é concordar nem simpatizar, mas suportar aquilo que se rejeita. A tolerância começa onde termina a afinidade; e, quanto mais grupos “desprezíveis” determinadas partes da sociedade identificarem, mais provável é que a intolerância dê as caras. A discriminação passa a parecer não apenas permitida, mas uma obrigação moral.
O segundo aspecto diz respeito a uma hipótese incômoda formulada pelos estudiosos do tema: a intolerância não desaparece nas democracias, apenas se dispersa. O máximo que se pode esperar, para atenuar o seu efeito, é que, em vez de um consenso majoritário contra um único grupo —condição necessária para perseguições sistemáticas—, passe a existir uma dispersão de alvos.
Cada segmento da sociedade tem o seu “inimigo intolerável preferencial”. A intolerância pluralista, uma fragmentação do ódio, poderia funcionar como um freio: quando nem toda a comunidade converge sobre quem deve ser excluído, torna-se mais difícil repetir as histórias de intolerância contra um único alvo.
Esse mecanismo, porém, tem limites claros. Ele depende da baixa intensidade da intolerância e da diversidade de alvos.
Quando essas condições se enfraquecem, o efeito moderador também se atenua.
É aqui que episódios como o do bar ganham significado mais amplo. Primeiro, porque revelam alta intensidade: não se trata de uma antipatia difusa, mas de uma disposição ativa de excluir —e de fazê-lo acintosamente. Segundo, porque mostram que, dentro de determinados grupos, pode haver convergência suficiente sobre um alvo específico, que será objeto de desprezo apenas por aquele grupo, mas será copiosamente discriminado.
A intolerância pode continuar plural no plano da sociedade como um todo, cada grupo escolhendo o próprio alvo, mas se torna concentrada e coesa em comunidades ideológicas capazes de agir. Basta que existam segmentos internamente numerosos, intensos e organizados para legitimar práticas de exclusão.
Terceiro, e talvez mais importante, porque evidenciam algo espantoso: a inversão do custo social da intolerância. Em vez de reprovação, isolamento social e punição, houve defesa agressiva da atitude e ganho econômico e simbólico por parte de quem discriminou. A intolerância virou uma forma de exibição moral —um gesto que sinaliza pertencimento e busca reconhecimento dentro de um grupo, a elite progressista do Rio.
O problema não é a crítica a governos —inclusive ao governo efetivamente genocida de Israel—, que é parte do debate democrático. O problema é quando grupos de identidade admitem punição coletiva de alvos com base, novamente, em identidades. Quando a discriminação, na forma de boicote, exclusão ou punição coletiva, recebe uma autorização grupal, mobiliza coletivos e tem expectativas realistas de recompensa, a tolerância deixa de ser um limite efetivo e começa a se desfazer como prática da vida em comum.
Nesse caso, abre-se uma porta que a história recomenda manter fechada.
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