Leda Maria Martins conta que foi “educada nas artes europeias, negras e indígenas”.
Parte dessa formação ilustra seu currículo acadêmico, de professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais, onde também se fez doutora. Mestre pela Universidade de Indiana, tem pós-doutorados na Universidade de Nova York e na Universidade Federal Fluminense.
O restante advém da herança afro-indígena, coroada pelo título devocional que ostenta desde 2005, de Rainha de Nossa Senhora das Mercês do Reinado de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá.
Todos esses conhecimentos habitam sua eclética constelação intelectual “sem hierarquia”, como ela própria diz. Desde cedo, a autora se debruça sem preconceitos sobre as letras, absorvendo tudo que pôde, dos teóricos brancos europeus aos cânones do sul global, dos reinados aos candomblés, “gêneros poéticos complexos”, nas palavras dela.
Diante de tamanha profusão de interesses, nada mais justo que a primeira compilação de textos seus cubra um universo igualmente vasto de saberes e caminhos artístico-literários. É o que faz “A Fina Lâmina da Palavra”.
Dividida em cinco partes que tratam de literatura, dramaturgia, poesia, artes visuais e teatro, essa coleção de textos novos e antigos, muitas vezes retrabalhados à luz de suas reflexões contemporâneas, pinta o rigor acadêmico com as tintas da poesia e da performatividade.
Na primeira parte, “Estiletes”, Martins apresenta uma série de autoras e autores negros do pós-abolição, refletindo sobre seus diferentes perfis e dicções literárias “com certa historiografia, mas não a tradicional”, como definiu a própria autora em um bate-papo em São Paulo em março, enquanto contava como organizou a obra.
Ela destaca a genialidade e a crítica nos textos de Machado de Assis e Cruz e Sousa, comenta a poesia de Conceição Evaristo e Esmeralda Ribeiro e ressalta a importância de iniciativas estéticas e políticas como os renomados Cadernos Negros, onde encontraram guarida e divulgação alguns dos principais poetas e ensaístas dos movimentos negros do Brasil.
Com esse resgate histórico, ela tira da “negrura das letras” a pecha de novidade estética do século 21. Afinal, o povo preto sempre escreveu com qualidade, rigor e grandeza e foi responsável por estabelecer os alicerces da literatura brasileira, ela defende. O problema é que, “para dar ênfase a alguns”, o Brasil “esquece outros”.
Na segunda e na terceira parte, “Poéticas da Cena Negra” e “Itinerâncias e Teatralidades”, aparece um ponto crucial dos trabalhos da poeta —o universo do teatro, das “cenas negras”.
Estão ali textos que recuperam a história de companhias como o Teatro Experimental do Negro, de Abdias do Nascimento, e a Companhia Negra de Revista, criada por De Chocolat. Martins debate os desafios de experimentar linguagens para reinventar a figura negra nos palcos, frequentemente estereotipada, e denunciar as condições concretas da vida diaspórica brasileira.
Em “Instâncias e Paisagens”, o quarto capítulo, entram as análises do romance “Joias de Família”, de Zulmira Ribeiro Tavares, e o trabalho do “poeta do povo”, o pernambucano Solano Trindade.
Fecha a obra o capítulo “Nas Franjas da Imagem” com um texto curatorial encomendado para a exposição “Saberá/As Filhas do Menor Chuvisco”, da artista potiguar Jota Mombaça; e um bonito ensaio sobre o universo artístico de Sonia Gomes, a partir de uma visita ao seu ateliê.
Ao resgatar essas reflexões construídas em décadas de pesquisa, Leda Maria Martins passeia com destreza por postulações críticas distintas e desvenda a complexidade das tecnologias da linguagem desenvolvidas pelas artes negras em busca da emancipação.
O resultado é um texto exigente, mas fluido, que permite a quem lê a rara experiência de navegar, sem interrupções, entre a pesquisa acadêmica e a contemplação.