Em um mercado editorial em constante diagnóstico de crise, a chegada de uma leva de lançamentos que revisitam a obra de W.E.B Du Bois renova a esperança política de que talvez os livros ainda possam salvar aquilo que necessita ser salvo: a própria crença de que ainda há tempo para se salvar algo.
“Reconstrução Negra”, lançado pela editora da Unicamp e pela Boitempo, “Água Escura”, pela Fósforo; e “Penumbra da Aurora”, pela Perspectiva, compõem um conjunto de livros produzidos com esmero e competência pelo projeto Du Bois (capitaneado pelo Afro-Cebrap) e propõem requalificar a recepção da obra do autor, reafirmando-o como um dos pilares da sociologia moderna.
É uma contribuição robusta no esforço de democratizar o acesso à obra do intelectual norte-americano nascido em 1868 em Barrington, nos Estados Unidos, e morto em 1963 em Acra, Gana.
A despeito da lista de intermináveis méritos que esses três lançamentos apresentam, para muitos de nós, viciados nos textos de introdução e nos livros de entrada, talvez seja tentador realizar um movimento de refração aos desafios interpretativos que a imensa obra de Du Bois propõe.
É um autor brutalmente americano —em um país no qual a esquerda aprendeu o antiamericanismo por cartilha—; um autor orgulhoso de sua negritude —em um país no qual a intelectualidade é tida como patrimônio imaterial dos eurodescendentes—; e um autor com obra recheada de projetos de emancipação para o povo negro —em um país no qual qualquer proposta de intervenção social deve ter origem em pessoas brancas.
Isso talvez represente um gesto analítico maior do que uma militância massacrada por séculos de indiferença seja capaz de suportar. Mas para os dedicados e racionalmente responsáveis (que devem existir em algum lugar), são livros com especial valor para uma geração de cotistas que finalmente se encontra em condições de tomar para si o que sempre foi seu.
Afinal, são livros carregados de boas reflexões e de achados filosóficos complexos, com método, rigor e boa redação. Tudo isso publicado por boas editoras, com traduções fluidas e conscientes do genuíno valor ético e estético das obras que estão vertendo para o português.
Cada uma das três obras, a seu modo, aborda um aspecto importante para a questão analítica do papel das identidades raciais na construção dos Estados Unidos e do protótipo de indivíduo livre nas Américas.
“Água Escura”, que traz um magnífico posfácio de Matheus Gato —a coisa mais importante que já se disse sobre o autor no Brasil—, é o mais literário dos três, misturando a as instâncias políticas e emocionais, a vida privada e a pública, a rua e a casa, o doméstico e o internacional.
Já “Penumbra da Aurora” aposta no acerto de contas com a tradição marxista e no exame zeloso dos limites das reflexões de sociedades em constante transformação.
A certa altura, Du Bois afirma com uma sinceridade profética: “Hoje, tanto os jovens como os idosos olham para um mundo cujos alicerces parecem estar desmoronando. Eles estão incertos sobre o que o amanhã trará. Talvez seja a queda definitiva da civilização europeia, daquele enorme e envolvente caldo de cultura no qual nasceram. Tudo em seu meio é matéria para crítica. Eles podem avaliar o passado e especular sobre o futuro sem paixão. É o momento de uma mudança fundamental”.
Isso foi escrito em 1940, mas é inegável que a atualidade dessas palavras impressiona e constrange mesmo os mais neófitos dentre nós.
No livro de maior fôlego, “Reconstrução Negra”, há uma recuperação historiográfica, com apresentação de Angela Davis.
Confrontando velhos mitos sobre a segregação racial e os processos que levaram à Guerra Civil dos Estados Unidos, Du Bois desmonta a narrativa de que certos estados são naturalmente conservadores, destacando com perspicácia os motivos pelos quais uma sociedade não pode ocultar na biologia as razões ideológicas de seus tropeços históricos e morais.
Tudo somado, ler Du Bois é ter aula sobre o que já se sabe: que é muito difícil ser negro em um mundo que odeia tudo aquilo de que depende para viver. E sobre o que era oculto para a maior parte de nós: que é possível desmontar as explicações raciais que a sociedade produz, se estivermos dispostos a destruir aquilo que sustenta suas estruturas —nossas próprias fantasias de onipotência.