Análise crítica sobre a representação da bondade humana no filme O Homem é Bom

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A coleção de histórias intitulada O Homem é Bom?, que saiu no Brasil pela Nemo, em 2012, e em outra versão (sem Cidadela Cega e Dupla Evasão, pela L&PM, em 1984) revela um momento de experimentos artísticos e temáticos de Moebius, que se propunha a desenhar aventuras de uma forma diferente de seu habitual e se forçava a escrever histórias que não tivessem um final trágico ou profundamente melancólico, como lhe era de praxe. Como o próprio autor escreveu depois, ele não foi feliz em muitas dessas tentativas, mas o que criou a partir desse pensamento é algo digno de admiração. Prefigurando Arzach (em termos estéticos), a trama que dá título à coletânea mergulha naquilo que é mais importante e que não está evidente, que não está claro para o indivíduo e nem para os seus observadores — no caso, nós. Há um jogo cômico e macabro em relação ao título da história, e o simbolismo que o autor toma para explorar isso é a orelha — que possui um formato semelhante ao de um feto — sendo arrancada e mastigada pelo chefe dos nativos de um determinado planeta, e então cuspida, como se fosse odiosa em termos de sabor. De outro ponto de vista, a solidão inicial desse soldado/explorador, sua derrocada, o fato de ter sido despido de roupas e armas e desprezado pelos alienígenas que o julgam intragável faz com que vejamos a força bruta a partir de sua fragilidade. Não é uma história gloriosa, nem nada, mas alcança muito bem o seu objetivo.

Na mesma linha de pensamento está Dupla Evasão, que desde o título sugere um caminho interpretativo e que reforça essa abordagem a partir da simplicidade com que mostra um prisioneiro escapando de uma prisão (física, murada, real) de uma maneira inesperada. É quase uma piada sombria, na verdade, mas essa denominação perde peso nos quadros seguintes, quando presenciamos um ato de violência terminar por libertar o prisioneiro de sua “outra prisão“, nesse caso, o corpo físico. Os simbolismos aqui são claros, mas nem por isso menos profundos. O autor também faz os desenhos mais contidos, deixando claro que está abordando um personagem na prisão e, por isso, sua diagramação deve brincar com a reclusão. Fica bastante coisa para se pensar a partir daqui: a libertação do indivíduo só é possível na hora da morte? É possível criar um choque em vida para fazer o espírito (ou a essência, ou seja lá o que for) expandir-se? Será que todo ser humano está preso ou apenas aqueles com problemas ou limitações íntimas que não os deixam avançar? Como disse, apesar de ser uma trama curta, Dupla Evasão nos dá muito o que pensar, basicamente porque fala de “liberdade” e esta é uma palavra que toca fortemente a todos nós.

Traminha arturiana bem estranha e reticente, Cidadela Cega é a única das histórias de O Homem é Bom? da qual eu não consigo gostar muito. Moebius acompanha o cavaleiro Tornsoc e sua chegada a um lugar com uma pequena cidadela construída numa pedra-estrela, conforme um habitante local lhe informa. Os desenhos aqui mostram um outro lado do artista e, destes, eu gosto muito, assim como das cores. Mas aquilo que eles representam me parece confuso demais, cifrado demais para prender a minha atenção e querer dizer algo coeso, mesmo que dentro do mundo das simbologias. Já na história seguinte, Balada, temos uma situação bem diferente. Inspirada por um poema de Rimbaud, a fantasia (inclusive nos belíssimos desenhos) versa sobre um encontro de mundos, partindo de personagens de diferentes origens, com diferentes ideias do que fazer com toda a natureza e riqueza da terra ao seu redor. O final é chocante porque mostra a face mais brutal daquilo que, em nosso mundo, pode ser atribuído a qualquer interação entre povos nativos, colonizadores e invasores que não enxergam a vida local como digna de ser preservada e só fazem notar o avanço sobre o território e os possíveis ganhos que esse avanço pode trazer.

Concebida durante a pré-produção de Duna, de Jodorowsky, com roteiro de Dan O’Bannon, The Long Tomorrow é uma história de detetive bastante densa, que cita “o cérebro do Major” e que tem uma concepção visual tão peculiar que nos faz lembrar imediatamente de O Incal, ao menos da parte mais ordinária e “cotidiana” da vida de John Difool. Visualmente, acho-a incrível. Como disse, a abordagem plástica de Moebius, aqui, me faz pensar bastante na saga que ele ergueu em parceria com Jodorowsky, e isso não apenas na arquitetura da cidade, mas na presença de criaturas e na maneira nada clichê com que ele criou os personagens. Narrativamente, é uma trama com saltos demais. Isso não a torna ruim, mas certamente a torna incompleta, especialmente no final, com a aura patética de “a vida é assim mesmo“. Por último, temos O Universo é Pequeno, um título que tem cara de ditado popular e que explora a coincidência mais absurda e mais azarada que se pode imaginar quando o assunto é exploração do Universo. É o tipo de trama que dispensa explicações e que faz o leitor rir de nervoso, trazendo um final pesado para algo que, à primeira vista, prometia ser apenas uma parada para descanso. E como se obedecesse a uma perfeita estrutura cíclica de questionamentos, essa história encerra a coletânea com a mesma agudeza da pergunta-título e seu significado na primeira parte do volume. Até onde vai a ira de uma pessoa em relação à outra? Ou pior: o ódio realmente cega a pessoa que contamina, a ponto de não enxergar que está facilitando a própria morte?

O Homem é Bom? (L’homme est-il bon?) — França, 1974 – 1980
Roteiro: Moebius
Arte: Moebius
Publicações originais: Pilote (1959) #744 (1974), Dargaud / Métal Hurlant (1975) #50, 51 (1980), Les Humanoides Associés / Métal Hurlant (1975) #7 e 11 (1976) / L’homme Est-Il Bon? (1977), Les Humanoides Associés
Edição brasileira: Editora Nemo (Coleção Moebius n°3, abril de 2012)
Tradução: Fernando Scheibe
56 páginas





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