Análise de Ricardo Araújo Pereira discute comparação entre Trump e figura de Cristo em 18/04/2026

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Tenho pensado muito no seguinte: quem é que os malucos pensavam que eram antes de 1769? Essa é a data do nascimento de Napoleão —e, de então para cá, tem sido fácil identificar as pessoas que não estão bem da cabeça, quando elas revelam a convicção de serem o imperador dos franceses. Antes disso, porém, como é que distinguíamos quem não estivesse na posse total do juízo?

Neste momento, as formas de loucura são tão variadas que Napoleão perdeu a exclusividade. Por exemplo, Donald Trump parece convencido de que é Jesus Cristo. Publicou uma fotografia feita por inteligência artificial em que aparece a curar um enfermo. No entanto, depois de certas pessoas terem criticado a fotografia, Trump desmentiu que estivesse a imaginar-se Jesus Cristo.

O objetivo da fotografia era imitar um médico da Cruz Vermelha, e só os fabricantes de fake news poderiam ver ali uma tentativa de se fazer passar por Jesus Cristo. De fato, Trump aparece vestido com uma túnica branca —a farda habitual dos médicos da Cruz Vermelha—, está a curar o enfermo pousando-lhe a mão na testa —o método terapêutico habitual dos médicos—, e tem um demônio pairando no ar, atrás de si —a ameaça que os médicos costumam enfrentar. Joe Biden, como se viu no debate, estaria a caminho da demência. Os americanos livraram-se de boa.

Entretanto, Trump continua a diagnosticar o transtorno mental que inventou a todos os que o criticam, grupo tão vasto que agora já inclui Tucker Carlson, Georgia Meloni e o papa. Uma novela muito engraçada de Machado de Assis conta a história do doutor Simão Bacamarte, um médico que tem, exatamente como Trump, a mania de detectar patologias em todo o lado. Dedica-se a identificar traços de loucura nas outras pessoas e a encarcerá-las num manicômio chamado Casa Verde.

O hospício vai ficando cada vez mais cheio porque o doutor Bacamarte vai progressivamente verificando que toda a gente que o rodeia é louca, circunstância que o leva a desconfiar de que talvez o único louco seja ele —e, por isso, no fim resolve fechar-se sozinho na Casa Verde. Fala-se muito no modo como a grande literatura antecipa o futuro, mas neste caso Machado de Assis cometeu uma falha cromática importante. Está tudo certo, mas a casa não é verde. É uma Casa Branca.


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