Análise crítica de Pai Mãe Irmã Irmão: reflexão sobre vínculos familiares e suas complexidades

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Em uma entrevista no Outlook Festival de 2023, Jim Jarmusch anunciou que estava fazendo um filme “engraçado, sutil e quieto“. Com a chegada deste tão esperado Pai Mãe Irmã Irmão, o que vimos foi uma obra relativamente sem graça, mas, de fato, quieta e sutil, com menos identidade do que esperaríamos de um longa do diretor, mas, ainda assim, capaz de garantir uma sessão reflexiva que traz, no melhor estilo jarmuschiano, relações quebradas, personagens com receio de tirar suas máscaras e uma preocupação e desconfiança que tornam toda a obra um poço de tensão. Quanto a isso, nada tenho a reclamar. Gosto muito do diretor e acredito que seu olhar meio romântico e meio cínico para a forma como as relações humanas se dão (em diferentes graus de proximidade) é brutalmente honesto e realista. Infelizmente, este longa em três segmentos independentes não consegue transformar os silêncios em algo diferente (à exceção do segundo ato, sobre o qual falarei mais adiante) e tenta a todo custo criar uma conexão em áreas distintas, mas tudo acaba parecendo forçado demais, proposital demais, como se o roteiro temesse que esquecêssemos das histórias anteriores.

Através de um movimento (os skatistas), de um objeto (o Rolex) e da palavra (um certo ditado popular), o roteiro disseca experiências desconfortáveis vividas, sentidas e processadas de maneiras diferentes. Numa primeira camada, o que move esses comportamentos é a intenção real do encontro. Em Pai, a motivação é o interesse financeiro do velho, que explora financeiramente o filho para conseguir viver do bom e do melhor. Em Mãe, a necessidade de manter contato e saber “como as coisas estão“, ao menos uma vez ao ano, coloca as duas filhas frente a frente com a genitora, mas, diferente do primeiro ato, não há hostilidade em cena. Por fim, em Irmão Irmã, o encontro é solene, carinhosamente fraterno e cheio de cumplicidade, embora a dupla também traga questões não resolvidas que acaba compartilhando, reconhecendo e aludindo a uma resolução. Da tríade, é a interação familiar mais saudável, mas não livre de impasses e tentativas de esconder um lado demasiadamente íntimo.

Filmado em Nova Jersey, Dublin e Paris, o longa clama por algo que o justifique, que lhe dê uma cara viva e que prove sua própria tese, mas isso só acontece no meio da projeção, quando temos Charlotte Rampling, Cate Blanchett e Vicky Krieps em cena. A primeira coisa que se destaca, neste ato, é o ritmo. As filhas chegam em momentos diferentes, a mãe tem um momento sozinha e o encontro entre as três — agora sim! — consegue transformar o silêncio em personagem, fazer com que diga algo, com que mostre ou sugira certas escolhas ou até mesmo o estado emocional da personagem naquele momento. A qualidade da escalação faz toda a diferença, mas também a proposta visual do diretor para todo o bloco, ironizando o tipo de tomada “casa de bonecas” e mesclando elegância, dificuldade de comunicação e insistência em manter um laço vivo, mesmo quando não faz mais sentido para nenhuma das partes. Note que em Pai, os personagens de Adam Driver e Mayim Bialik são colocados em uma situação similar, mas o cinismo do roteiro e a escolha da fotografia e dos movimentos de câmera não ajudam esse bloco a crescer, deixando-o cada vez mais antipático. Por outro lado, Irmão Irmã e reforça a energia dos jovens (a paleta de cores é um indicativo disso também) que lamentam a morte dos pais e traz performances convincentes, mas bem lineares, de Indya Moore e Luka Sabbat.

Pergunto: o que há de ganho e de perda para cada família, para cada lado, após o encontro? Não é como se o diretor e roteirista fosse obrigado a definir os destinos de cada um, mas essas interações deveriam esgotar o seu próprio ciclo, dentro de suas próprias regras. Eis que surge o problema de Pai Mãe Irmã Irmão. Por mais interessante que cada situação seja, a realidade representada parece incompleta. E não “incompleta” no sentido metafórico, de indicar um buraco na alma ou nos sentimentos dos personagens. Digo “incompleta” no sentido de que a exposição na tela tinha um ponto de partida e chegada, mas ele continuou difuso o tempo inteiro. Até no melhor dos núcleos essa falta é sentida, e seria muito bonitinho eu assumir a persona de crítico emocionado, dizendo que a abordagem do diretor é “tão boa que toca o público com a mesma carga sentimental de seus personagens“. Só que não. O que acaba acontecendo é que o longa parece não ter sido totalmente calibrado. E sem a parte da essência que lhe falta, ele termina sendo “apenas cínico“; aqui e ali com bons momentos e frases tocantes, mas nada que o faça amadurecer e mostrar-se, em sua síntese familiar, onde verdadeiramente quer chegar.

Pai Mãe Irmã Irmão (Father Mother Sister Brother) — EUA, Reino Unido, Itália, França, Irlanda, Alemanha, 2025
Direção: Jim Jarmusch
Roteiro: Jim Jarmusch
Elenco: Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Vicky Krieps, Sarah Greene, Indya Moore, Philippe Azoury, Luka Sabbat, Françoise Lebrun, Beatrice Domond, Stephen Ostrowski, Eduardo Hoffman, Daire Mcgorman, Dave Murphy, Tom O’Reilly, Sébastien Rolando-Lapierre, Sarah Ribeiro, Alan Johnson, Alison Johnson
Duração: 110 min.





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