A arquitetura narrativa de A Conspiração Condor, sob a direção de André Sturm, propõe um exercício de reconstrução que desafia a fronteira entre o rigor documental e a fluidez do drama cinematográfico. O filme se manifesta como uma tentativa de mapear as engrenagens ocultas da Operação Condor, mas o faz através de uma linguagem que privilegia a clareza analítica em detrimento da sugestão poética. Ao mergulhar nos anos de chumbo, a direção parece temer a ambiguidade, optando por uma estrutura onde a explicação se torna a espinha dorsal da experiência. Esse fenômeno gera uma obra de uma sobriedade inabalável, onde o formalismo não serve apenas como estética, mas como um escudo contra o caos emocional que o tema, por natureza, carrega. O resultado é um filme que se apresenta com a dignidade de um arquivo histórico, mas que enfrenta dificuldades para respirar enquanto organismo artístico independente, ficando muitas vezes refém de suas próprias ambições didáticas.
A gramática visual estabelecida por Sturm é, talvez, o elemento que mais evidencia o conflito entre a técnica e a alma. A cinematografia de Andradina Azevedo é de uma competência inquestionável, mergulhando a tela em uma paleta cromática que evoca uma memória institucional, um passado preservado em âmbar. Contudo, essa escolha cromática protocolar acaba por criar um distanciamento involuntário. A tensão política, que deveria pulsar em cada frame, parece contida por uma moldura de segurança técnica. O filme não busca o extraordinário ou o choque visual; ele se contenta com uma correção que, embora respeitável, resulta em uma atmosfera de melancolia burocrática. É como se a produção estivesse mais interessada em validar o cenário histórico do que em utilizar esse cenário como um catalisador de tensão narrativa. A reconstituição de época é impecável, mas carece daquela desordem necessária que torna a realidade tangível para quem a assiste, restando uma sensação de que estamos observando uma vitrine histórica muito bem iluminada, mas selada por um vidro intransponível.
No centro desse emaranhado de fatos, a atuação de Mel Lisboa é um ponto de equilíbrio, com uma performance marcada pela contenção e pela inteligência. No entanto, sua trajetória é frequentemente limitada pela linearidade de um roteiro que se preocupa excessivamente em não deixar lacunas. O cinema político brasileiro tem um histórico de denúncias viscerais e de uma estética da urgência, mas Sturm trilha o caminho oposto: o do academicismo. As figuras históricas de Juscelino Kubitschek e João Goulart, cujos destinos trágicos ainda alimentam debates e teorias, são tratadas com uma sobriedade que esvazia o potencial de suspense da trama. O que se observa é uma aula encenada com maestria, mas onde a surpresa é deliberadamente sacrificada para que nenhuma informação seja perdida pelo espectador. A pulsação dramática é subjugada pelo ritmo cadenciado da exposição histórica, criando uma barreira para a fluidez da alma do texto, que acaba se tornando um registro detalhista em vez de uma vivência carnal.
A maior problemática da obra é como ela organiza a percepção do público através de uma previsibilidade sistemática. Enquanto o grande cinema de conspiração costuma levar o espectador a um clímax de revelações chocantes, A Conspiração Condor opera em um registro onde as conclusões são tratadas como novidades, mesmo quando já foram antecipadas pela própria estrutura da narrativa. Ao abdicar do impacto emocional e do uso de metáforas mais densas para se ater à explicação redundante, o filme altera a natureza da experiência cinematográfica. As histórias que compõem o mosaico da trama, quando analisadas isoladamente, parecem não atingir a profundidade humanista que a complexidade do tema exige. Há um detalhismo técnico louvável na decupagem, mas falta aquela “faísca de vida” que transforma o registro do passado em uma emoção presente. O terço final da projeção, que deveria ser o momento de transbordamento catártico, acaba chegando ao fim com uma correção técnica que não reverbera na pele do espectador, mantendo-o como um observador externo de uma tragédia que ele compreende intelectualmente, mas que não chega a sentir profundamente.
A direção de atores, embora funcional e correta, não consegue romper com o engessamento de uma condução que tenta equilibrar múltiplos gêneros sem mergulhar verdadeiramente em nenhum. O sufocamento que o filme provoca não advém da atmosfera opressiva da ditadura representada, mas sim de uma linguagem visual que se sente presa a enquadramentos rígidos, por vezes lembrando a estética de produções televisivas que evitam o risco estético em favor da clareza absoluta. Enfim, a obra falha ao acreditar que a essência do cinema reside na harmonia das informações, quando, na verdade, ela se encontra na tensão entre o visível e o invisível. Ao se prender a uma gramática engessada e meramente funcional, Sturm entrega uma obra que é apenas o reflexo de uma potência não atingida, provando que, na arte, o excesso de didatismo pode acabar silenciando a própria história que se deseja resgatar do esquecimento.
A Conspiração Condor (Brasil, 2026)
Direção: André Sturm
Roteiro: André Sturm, Victor Bonini
Elenco: Mel Lisboa, Dan Stulbach, Maria Manoella, Nilton Bicudo, Zé Carlos Machado, Pedro Bial, Liz Reis, Lavínia Pannunzio
Duração: 115 min