- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.
Que sensação estranha foi assistir Código Aberto. Apesar de estarmos falando do quarto episódio da temporada e ele efetivamente partir de eventos estabelecidos anteriormente, ele tem toda a aparência e construção de um episódio de começo de temporada, pelo que o capítulo parece efetivamente marcar o ponto em que o ano parece ter começado para valer, deixando claro, pelo menos em linhas gerais, o que nos espera pela frente na superfície de Marte. Mesmo considerando o DNA rebelde do recém falecido Ed Baldwin como inspiração para a escolha de Alex de vazar os documentos que achou na base de dados da Helios e mesmo considerando a conexão que a promiscuidade da Helios com a Kuragin em um plano para automatizar Vale Feliz a ponto de deportar 98% da mão de obra local de volta para a Terra tem com a investigação iniciada por Celia Boyd, mas silenciada por seu chefe, foi peculiar dar de cara, quase na metade da temporada, com algo que parece um começo ou, pelo menos, um recomeço que eu demorei a me decidir se era bom ou ruim.
E não ajudou muito nesse processo decisório que o roteiro escrito pela brasileira Sabrina Almeida, engenheira aeroespacial pelo MIT com passagem pela NASA que já é veterana na série, tenha reconstruído, por assim dizer, o cordão umbilical com a Terra que parecia ter sido cortado com a decisão de Aleida de partir para Marte. A introdução de uma quase totalmente nova personagem, ou seja, a versão adulta de Avery “A.J.” Jarrett (Ines Asserson), nascida Avery Stevens, filha de Danny e neta de Gordo, como uma soldada aspirante a fazer parte da Força Expedicionária Espacial e que tem Danielle Poole (Krys Marshall) como mentora/madrinha parece tardia, reiterando a ideia de “novo começo”. No entanto, quando eu digo que “não ajudou”, não quero de forma alguma dizer que não funcionou, mas sim que a introdução de uma nova personagem a essa altura do campeonato pareceu-me uma escolha que poderia ter sido facilmente evitada, bastando ter costurado a presença dela na Terra, mesmo que rapidamente, ao longo dos episódios anteriores, de preferência desde o primeiro, para evitar o que acabou parecendo uma forma um tanto quanto canhestra de manter alguma ponta narrativa na Terra, ainda que seja perfeitamente possível visualizar como a história de A.J. acabará convergindo para o Planeta Vermelho, com potencial até mesmo de trazer algum tipo de redenção ao seu sobrenome original manchado por seu pai biológico.
A passagem temporal de pouco mais de um mês permitiu que Aleida chegasse em Marte e que a Sojourner fosse retrofitada para a viagem à Titã, mas, mesmo ciente desse lapso, tudo me pareceu corrido demais, talvez inadvertidamente em razão da montagem, mas mesmo assim muito instantâneo, algo que é reiterado pelo trabalho investigativo de Alex que me pareceu aleatório, com base em um arquivo com nome em russo que ele não consegue acessar e a introdução – também tardia, olhem só! – de todo o conceito de que um acordo havia sido feito sobre a não-automação do elevador espacial sendo construído e de outras atividades em solo marciano para preservar a mão de obra humana. Todo o processo de Alex começando seu trabalho, sendo tragado por Dev para seu projeto megalômano de construção de uma cidade utópica no planeta que certamente tem como objetivo ser a “casa de campo” de bilionários e tendo um breve contato com Aleida não me convenceu pela completa falta de fluidez e por parecer o que é: ação em fast forward para tornar possível o vazamento da documentação.
Os conceitos todos, porém, estão presentes e fazem pleno sentido na temporada. O que não fez muito sentido, para mim, foi a inserção desse episódio nesse ponto ou, pelo menos, dos elementos novos apresentados somente aqui, já com tudo em pleno andamento. Essa é a primeira vez em For All Mankind que sinto que faltou planejamento na temporada, algo talvez provocado pela dispersão da equipe para trabalhar na vindoura Cidade das Estrelas ou pela notícia de que a sexta temporada seria a última, exigindo uma aceleração de eventos, ou pelo dois, claro. Código Aberto continua sendo um bom episódio, ainda que com viés de baixa, e isso não é mais suficiente aqui. A temporada simplesmente precisa de foco e de concatenação de ideias sem que o espectador tenha que fazer ginástica para acomodar e rearranjar as questões mais problemáticas de maneira a suavizá-las. A morte de Ed Baldwin, bem trabalhada como foi, parece que simbolicamente “puxou o tapete” da temporada, obrigando um recomeço desnecessário que chega até mesmo a esvaziar a importância do sacrifício do almirante para salvar seu amigo que, aliás, já não aparece há dois episódios e cuja liga de nações (ISN) que lhe deu asilo ainda não tenha ganhado nenhum tipo de desenvolvimento decente. Episódio estranho esse, sem dúvida alguma, mas fica a esperança de que, mesmo às vésperas de chegarmos na metade da temporada, o quinto ano encontre seu norte.
For All Mankind – 5X04: Código Aberto (For All Mankind – 5X04: Open Source – EUA, 17 de abril de 2026)
Criação: Ronald D. Moore, Matt Wolpert, Ben Nedivi
Direção: Meera Menon
Roteiro: Sabrina Almeida
Elenco: Joel Kinnaman, Wrenn Schmidt, Cynthy Wu, Coral Peña, Toby Kebbell, Mireille Enos, Edi Gathegi, Costa Ronin, Sean Kaufman, Ruby Cruz, Shannon Lucio, C. S. Lee, Dimiter Marinov, Randy Oglesby, Myk Watford, Ines Asserson, Krys Marshall
Duração: 56 min.