- Há spoilers somente das temporadas anteriores. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.
A quarta temporada de Dark Winds é a primeira a ganhar lançamento no Netflix logo após o fim de sua exibição original no canal AMC, em acordo de licença semelhante ao que tornou Breaking Bad o sucesso que foi, já que, antes de chegar ao streamer, a série criada por Vince Gilligan não tinha nem de longe a penetração que teria. Gostaria de poder dizer que Dark Winds seguirá os mesmos passos de Breaking Bad, pois a adaptação da série literária de Tony Hillerman por Graham Roland e John Wirth definitivamente merece esse destaque, mas tenho para mim que não há chance de isso acontecer não só pela natureza da obra em si, como também pelo fato de estarmos em uma época de frenesi de séries que torna muito mais difícil a solidificação de um punhado no imaginário popular.
O quarto ano da série é marcado pela ousadia de deslocar a ação da série da reserva Navajo no Monument Valley para Los Angeles, arriscando torná-la menos característica, menos especial justamente por ser uma obra centrada na combinação de investigação policial pela polícia tribal com a espiritualidade nativa. No entanto, quando o movimento de levar a ação dos Quatro Cantos para a Cidade dos Anjos acontece, ele é perfeitamente lógico e natural, além de haver todo o cuidado para que os dilemas dos personagens e as mazelas impostas aos nativos-americanos e toda a mitologia Navajo sejam mantidos sem parecer por um segundo sequer que a produção forçou a barra para que isso acontecesse. A premissa que permite esse movimento é enganosamente simples, com dois primos Navajo tentando achar o irmão de um deles na reserva e sendo perseguidos por uma misteriosa assassina alemã.
Digo “enganosamente simples”, pois não só o caso sob investigação é bem mais complexo do que inicialmente parece, ainda que seguindo convenções do gênero em grande parte, como a assassina vivida sensacionalmente por Franka Potente é fascinante em sua meticulosidade, psicopatia e principalmente obsessão pelo tenente Joseph “Joe” Leaphorn (Zahn McClarnon). No entanto, como de praxe na série, por mais engajante que a investigação seja, ela é apenas um elemento da história que jamais, em momento algum, deixa de abordar seus protagonistas com engenhosa profundidade, algo que começa com a decisão de Leaphorn de se aposentar da polícia depois que suas ações anteriores levaram sua esposa Emma (Deanna Allison) a deixá-lo e a se mudar para Los Angeles, o que é trabalhado com constância ao longo da temporada e sem soluções fáceis. E, se Leaphorn é que teve seu lado espiritual abordado na temporada anterior, agora é a vez de Jim Chee (Kiowa Gordon) sofrer fisicamente por trauma de seu passado catalisado por um momento forte logo no começo da temporada e que o afeta profundamente até o final. Por último, mas não menos importante, temos Bernadette Manuelito (Jessica Matten), que retornou da polícia de fronteira e é a escolhida de Leaphorn para ser sua sucessora, o que, claro, cria uma cisma com Chee.
O entremeio dos dilemas de Leaphorn, Bern e Chee combinado com a inclemência da assassina de Potente em meio à continuada crítica à forma como os povos nativos eram e são tratados nos EUA fazem da temporada, mesmo em nova ambientação por boa parte de sua duração, mais outro exemplo da qualidade do trabalho da AMC em frente a temáticas que raramente ganham tratamento serializado. Há muito espaço para atuações primorosas, valendo especial destaque para Kiowa Gordon que finalmente encontra o tom exato para seu Chee, mas sem nos esquecer da costumeira qualidade e intensidade de McClarnon e da força espiritual de Matten, todos agora “acompanhados” de uma Franka Potente muito inspirada na construção de uma personagem caótica que trafega entre a tentativa doentia de respeitar as tradições nativas, a obsessão por Leaphorn e o cuidado com seu pai nazista que sofre de demência, vivido por Udo Kier.
Meu único problema com a temporada é seu episódio final ou, mais especificamente, a segunda metade dele, pois a primeira, em espaço confinado, é soberba. Diferente do que vinha sendo feito na série, o fechamento da história investigativa vem relativamente cedo, de forma que as demais linhas narrativas possam ter tempo para serem devidamente amarradas, mas é nesse aspecto que achei que há uma sucessão grande demais de epílogos que parecem mini-episódios e um final que, surpreendentemente, deixa um gancho direto para a próxima temporada já em produção, quebrando a natureza autocontida que vinha sendo marca da série. Essa estratégia me pareceu completamente desnecessária e pouco característica de Dark Winds, que jamais precisou recorrer a expedientes tão comuns para prender a atenção. Por outro lado, se esse for o preço a ser pago para que a distribuição via Netflix torne a série um fenômeno de audiência, então eu definitivamente estou disposto a pagá-lo!
Dark Winds – 4ª Temporada (EUA, de 15 de fevereiro a 05 de abril 2026)
Data de exibição no Brasil: 06 de abril de 2026
Criação: Graham Roland (com base em série literária de Tony Hillerman)
Showrunner: John Wirth
Direção: Craig Zisk, Zahn McClarnon, Chris Eyre, Jim Chory, Steven Paul Judd, Erica Tremblay
Roteiro: John Wirth, Steven Paul Judd, Max Hurwitz, Wenonah Wilms, Thomas Brady, Erica Tremblay, Shaandiin Tome, Shandton Williams II
Elenco: Zahn McClarnon, Kiowa Gordon, Jessica Matten, Deanna Allison, Isabel DeRoy-Olson, Franka Potente, DezBaa’, Betty Ann Tsosie, A Martinez, Ernest David Tsosie, Derek Hinkey, Bodhi Okuma Linton, Titus Welliver, Chaske Spencer, Angelina LookingGlass, Udo Kier, Luke Barnett, Avery Hale, Linda Hamilton, Forrest Goodluck, Jillian Dion
Duração: 364 min. (oito episódios)