Embora o icônico Chucky detenha o título de rei absoluto dos brinquedos perigosos, o mercado audiovisual dos anos 90, sempre fértil em produzir pérolas do cinema trash, resolveu que era hora de dar uma nova roupagem a um clássico de Carlo Collodi. Em meados daquela década, enquanto as audiências ainda se recuperavam do terror de Brinquedo Assassino, Kevin Tenney assumiu o roteiro e a direção de uma versão visceral e sangrenta do boneco que queria ser menino. Pinóquio: O Perverso surgiu como um desses tesouros das videolocadoras, locado exaustivamente por uma geração de cinéfilos que consumia o horror de forma tátil, entre fitas VHS e capas chamativas que prometiam muito mais do que o orçamento podia entregar.
A proposta funciona como uma deturpação ácida da versão mais edulcorada do bonequinho sem consciência, transformando o ideal original de Collodi em um vilão puro e simples, uma extrapolação macabra do ser que não entende a moralidade humana. Curiosamente, o lançamento ocorreu quase em paralelo ao otimista As Aventuras de Pinóquio (1996), de Steve Barron, que tentava resgatar maior proximidade ao romance italiano. No entanto, enquanto Barron buscava o lúdico, Tenney mergulhava na sombra. O filme da Trimark Pictures ignora a redenção da animação da Disney de 1940 para focar no lado mais violento e perturbador que o conto original já sugeria, flertando abertamente com o horror psicológico e o slasher.
A trama se estabelece com um prólogo apressado, onde um homem enterra apressadamente o boneco junto ao corpo de seu próprio filho, um crime pelo qual ele será condenado à cadeira elétrica. A pressa narrativa, inclusive, parece ser a marca da produção: antes mesmo de compreendermos o presente, somos jogados em um passado nublado por uma noite chuvosa e um letreiro explicativo. A história gira em torno de Jennifer Garrick, a advogada que defende o suposto infanticida e acaba, por um erro de percurso digno de convenções de roteiro, levando o boneco de madeira para casa. É ali que o brinquedo cai nas mãos de sua filha pequena, Zoe, que o adota como seu confidente e único amigo.
O que se segue é uma sucessão de acidentes violentos que orbitam a pequena Zoe, criando o grande mistério da fita: o boneco está possuído por uma força maligna ou a menina está projetando seus próprios traumas e cometendo os crimes? A direção tenta, a todo custo, elevar o tom de seriedade através de uma narrativa que coloca o boneco em primeiro plano de forma ameaçadora. No entanto, essa atmosfera muitas vezes se perde em meio a elementos típicos do gênero na época, como cenas de nudez gratuitas e sustos falsos que se multiplicam conforme o filme avança, minando um pouco da tensão que a premissa original poderia sustentar.
Ainda assim, há méritos a serem observados sob a poeira do tempo. A direção de fotografia de Eric Anderson consegue entregar momentos visualmente interessantes, enquanto a trilha sonora de Dennis Michael Tenney cumpre seu papel funcional, ainda que seja esquecível. O grande triunfo reside na representação da solidão infantil: Zoe é uma garota fragmentada pelo divórcio dos pais, sofrendo bullying na escola e sentindo-se negligenciada por uma mãe que divide o tempo entre o trabalho e um novo namorado. Assim como Gepeto, Zoe deseja que o boneco ganhe vida para preencher seu vazio, transformando a máxima “se você acreditar, torna-se real” em um pesadelo solitário.
Dentro dessa lógica, o Pinóquio perverso se torna uma extensão sombria da própria garota. Se no conto original o boneco tinha o Grilo Falante para agir como sua consciência e a Raposa para levá-lo ao perigo, aqui Zoe assume o papel da consciência, enquanto Pinóquio torna-se o veículo de sua libertação agressiva. Ele é o braço armado para tudo aquilo que ela, reprimida pelos valores sociais e pela rigidez da infância, não pode expressar. O filme flerta com a ideia de que a criança não compreende as injustiças do mundo adulto e, ao se sentir acuada, encontra na madeira inanimada a coragem para dar o troco.
Essa dinâmica de “vingança infantil” é ilustrada em momentos como aquele em que Zoe morde a orelha de uma colega e é repreendida, questionando silenciosamente por que o mundo permite que ela seja empurrada, mas não que reaja. A confusão existencial de Zoe espelha a do boneco: “Por que meus colegas são de carne e eu me sinto de madeira?”. Embora o filme tente trazer essas questões profundas sobre a formação do caráter e a moralidade na infância, muitas dessas boas ideias acabam ficando em segundo plano, soterradas por furos de roteiro e atuações oscilantes que impediram a obra de se tornar um marco absoluto.
No fim das contas, Pinóquio: O Perverso permanece como uma curiosidade fascinante da década de 1990, um exemplar perfeito de como o cinema de baixo orçamento conseguia subverter contos de fadas para dialogar com os medos suburbanos. É um filme que diverte os fãs do gênero “boneco do mal” não apenas pela violência, mas pela sua bizarrice intrínseca. Ele nos lembra que, às vezes, os brinquedos mais perigosos não são aqueles que carregam facas, mas aqueles que servem de espelho para as nossas frustrações e desejos mais reprimidos. É aquele filme trash divertido, que sabemos o quanto fica devendo ao cinema em termos dramáticos, mas que ainda assim pode ser uma boa diversão se você não se prender demais aos detalhes.
Pinóquio: O Perverso (Pinocchio’s Revenge) – Estados Unidos, 1996
Direção: Kevin Tenney
Roteiro: Kevin Tenney
Elenco: Rosalind Allen, Brittany Alyse Smith, Todd Allen, Lewis Van Bergen, Candace McKenzie, Larry Cedar, Janet MacLachlan, Ron Canada
Duração: 96 min.