Leci Brandão, aos 81 anos, lança projeto audiovisual que destaca sua trajetória artística

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Aos 81 anos, Leci Brandão vai começar a fazer terapia. Diz que precisa de uma psicóloga para dar conta de tanta emoção, fruto das diversas homenagens que vem recebendo nos últimos anos, seja no Carnaval, no teatro ou nos palcos de todo o Brasil. “Há momentos em que eu fico perdida com tanta coisa ao mesmo tempo.”

Na primeira quinzena de maio, chega mais uma —o primeiro volume do audiovisual “50 Leci Brandão – 50 Anos de Carreira”. Gravado em julho do ano passado, na Casa Natura, em São Paulo, o projeto revisita seus grandes sucessos e presta homenagem a compositores que cruzaram seu caminho, como Almir Guineto, Arlindo Cruz, Jovelina Pérola Negra, Jorge Aragão, Alceu Valença e Fagner.

No palco, Leci também divide canções com Criolo, em “O Sol Nascerá”, Pretinho da Serrinha, em “Ponta de Dor”, e Xande de Pilares, em “Meu Oceano”.

Nascida em Madureira, na zona norte do Rio de Janeiro, Leci fala que o primeiro contato com a sua vocação se deu depois de uma desilusão amorosa. A música “Tema do Amor de Você”, nunca gravada, chegou de supetão, com melodia e letra.

Assim, ela descobriu que a criatividade faz terreno em seu corpo. “É orixá dizendo: ‘você não vai sofrer, vai compor’. Posso estar passando um café, posso estar viajando de trem, posso estar no banho. A ideia vem de forma natural”, ela diz.

O canto surgiu da mesma maneira, como um dom. Participava de festivais estudantis, quando ainda era estudante do Colégio Pedro 2º, incentivada por amigos. Até tentar a sorte, em 1968, no famoso programa “A Grande Chance”, da TV Tupi, apresentado por Flávio Cavalcanti. Não ficou em primeiro lugar, mas chegou até a final, tornando-se conhecida nacionalmente.

Apesar de dizer que nunca participou de movimentos sociais, sua obra flertava com as discussões da época. Nos anos 1970, conseguiu um emprego na Universidade Gama Filho e passou a conviver com nomes como a intelectual Lélia Gonzalez.

“Lélia era professora de filosofia na época. Quando tinha oportunidade, eu assistia à aula dela. Mas não tinha muito tempo, porque eu trabalhava no departamento pessoal. Quando eu participei do primeiro festival de música da Gama Filho, a Lélia foi uma das pessoas que torceram por mim. Tirei segundo lugar no festival, ganhei o prêmio de revelação, e ela me incentivou a continuar compondo. Disse que eu escrevia sobre o nosso povo.”

A Estação Primeira de Mangueira também exerceu grande influência na sua arte. Escola do coração, integrou a ala de compositores em 1972, depois de passar um ano “estagiando” para provar seu talento. “Nos ensaios, tinha uma ordem para cantar. Marcava presença na folha e esperava a sua hora. Como eu era novinha, eu aprendia o samba dos outros e as pessoas gostaram de mim”.

Num desses ensaios, o ator Jorge Coutinho a convidou para cantar “Quero Sim”, parceria sua com Darcy da Mangueira, no Teatro Opinião. As participações fizeram tanto sucesso que Leci passou a integrar a banda fixa da Noitada de Samba, realizada às segundas-feiras.

Em 1974, foi chamada pela Discos Marcus Pereira para gravar seu primeiro compacto, com quatro canções autorais. O lançamento coincidiu com o primeiro LP de Cartola, também pela mesma gravadora. Os dois passaram a se apresentar juntos em algumas capitais, o que rendeu ainda o registro marcante no programa Ensaio, da TV Cultura, naquele ano.

Mas foi São Paulo, onde passou a morar nos anos 1980, que a consolidou como artista de grande público. Após cinco anos sem gravar, o LP “Leci Brandão”, de 1985, ganhou força no programa “O Samba Pede Passagem”, de Moisés da Rocha. “Eu lembro quando cantei no Centro Cultural São Paulo, eu nunca tinha lotado um show. Foi uma coisa retumbante. Tive que fazer duas sessões.”

O período longe dos estúdios não foi por acaso —suas composições, de forte teor político, encontravam resistência no mercado. Foi nesse contexto que Leci recorreu ao caboclo Rei das Ervas.

Desde então, passou a encerrar seus discos saudando um orixá. “Fui orientada. Gravei para Iansã, quem cuida da minha poesia. E Ogum, quem me bota na guerra. Foi quando ganhei meu primeiro disco de ouro, em 1988.”

Se um artista só consegue cantar aquilo que consegue carregar, ao longo dos mais de 50 anos de carreira, Leci cantou um projeto de Brasil. Colocou figuras como o negro, o homossexual, a mulher, o outro —aquele que não segue o padrão do dominante— no centro da discussão, apontando para um país mais justo.

“Não sou advogada, mas sempre defendi pessoas. É algo que me impulsiona. Eu tenho um compromisso que Deus me deu. Canto para as pessoas se sentirem mais fortes e não pararem de lutar.”

Para ela, hoje em seu quarto mandato como deputada estadual pelo PCdoB em São Paulo, o seu Brasil mudou o Brasil real.

“Quando me elegi, coloquei meus LPs na mesa e fui anotando todos os temas que abordei musicalmente. E disse: ‘meu mandato vai ser sobre isso’. Eu me orgulho de ter um gabinete com o nome ‘Quilombo da Diversidade’. A gente contribuiu muito para algumas mudanças, sim. Faço a maior confusão se essas pessoas não forem respeitadas.”



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