Análise detalhada da 2ª temporada de Treta: evolução, pontos fortes e desafios da série

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Sucesso no audiovisual é complicado, pois pode funcionar tanto como reconhecimento do árduo trabalho de uma grande equipe quanto como um instrumento que põe pressão nas mentes criativas para o “próximo passo”, constantemente levando à frustração tanto delas quanto do público. A conversão em séries de obras  particularmente bem-sucedidas que foram originalmente criadas como minisséries é uma dessas situações complicadas, pois, como no caso de continuações de filmes, tende a levar a exageros, repetições e desgaste. Em tempos recentes, foi assim como Big Little Lies, The White Lotus, The Flight Attendant e outras, com resultados menos do que ideais, só para usar um eufemismo e foi assim com Treta, um conceito básico que poderia ter rendido uma obra rasa, mas que foi trabalhado de maneira surpreendente por seu criador, o coreano-americano Lee Sung Jin, tornando-se uma sensação de momento que, ato contínuo, ganhou uma segunda temporada em formato de antologia.

Portanto, foi com certa trepidação que encarei esse retorno da série, imaginando que não veria mais do que basicamente a mesma coisa novamente, só quem com um elenco diferente. Ainda bem, porém, que eu subestimei Lee Sung Jin e deparei-me com um segundo ano completamente diferente do anterior que não segue absolutamente nada do que foi estabelecido antes. Sim, há “tretas”, obviamente, mas o criador e showrunner não se contenta com a estrutura da anterior, em que o tronco de uma árvore, no caso o incidente de raiva no trânsito, leva ao crescimento de uma variedade de galhos que vão expandindo a narrativa que, porém, sempre retorna à origem. Na segunda temporada, os únicos dois elementos que se pode dizer que retornam da primeira é o conflito de classes e os aspectos que remetem à Coréia do Sul, ainda que, no primeiro caso, esse conflito de classes é somado ao conflito de gerações e, no segundo, a presença das raízes coreanas são mais marcantes e relevantes.

Aqui, há dois troncos narrativos centrais no início da história, um composto pelo casal maduro Joshua Martin (Oscar Isaac) e Lindsay Crane-Martin (Carey Mulligan), respectivamente o gerente geral de um exclusivo country clube na Califórnia e uma decoradora de interiores que faz trabalhos para o clube e outro composto pelo casal de noivos jovens, Ashley (Cailee Spaeny) e Austin (Charles Melton), que têm funções menores no mesmo clube. Esses troncos completamente diferentes se cruzam quando o casal de jovens se depara com o casal maduro em uma briga, filmando um momento que, fora de contexto, condena Joshua como um marido violento e abusivo, o que, na verdade, ele não é. Segue-se, então, uma relação delicada de chantagens e de fraudes que ganha mais relevo ainda quando um terceiro tronco é introduzido na história de maneira já entrelaçada com os outros dois, o da bilionária coreana Park (Youn Yuh-jung), que recentemente adquiriu o clube e cujo segundo marido, Dr. Kim (Song Kang-ho) é um renomado cirurgião plástico em Seul.

Josh e Lindsay vivem um relacionamento estremecido e muito claramente acima de seus meios, o que é mais claramente representado por uma suntuosa casa que, porém, permanece inacabada há 20 anos, com a temporada aos poucos trazendo elementos do passado dos dois para dar contexto e estofo à narrativa e às suas escolhas. Por outro lado, Ashley e Austin, este parcialmente de ascendência coreana, formam um casal idealizado, que fala em pseudo-jargões repletos de correção política, como se eles fossem o retrato da pureza. No conflito deflagrado pela briga filmada e usada como arma, as convenções sociais de ambos os lados começam a ruir com cada vez mais constância, o que tende a mostrar que a distância entre gerações não é tão grande assim, se é que ela realmente existe. Lee Sung Jin e sua equipe de roteiristas constroem uma história densa, engajante e redistribuída em oito episódios, dois a menos que a temporada original, mas com a mesma minutagem final, o que é uma escolha boa dada a natureza dramática e não puramente cômica da obra, de certa forma exigindo a “formalidade” de episódios mais longos, ainda que haja muita variação na duração de cada um deles.

Apesar de haver momentos de humor corporal – confesso se não sei se a “humor” é a melhor palavra, porém -, eles são esparsos, com o showrunner muito mais dedicado a abrir espaço para os quatro atores que vivem os dois casais centrais, além de, claro, a veterana Youn Yuh-jung em um papel excelente e também sinistro, e as participações coadjuvantes especialmente de William Fichtner como Troy, sócio do clube que é supostamente amigo de Josh, e Seoyeon Jang como Eunice, assistente pessoal de Park. É no elenco que repousa o coração da série e Oscar Isaac e Carey Mulligan estão simplesmente perfeitos em seus respectivos papeis, transitando muito bem entre as várias máscaras que eles precisam usar em seu cotidiano eminentemente falso, mas que também carrega o peso e a ternura de uma relação de anos de casado. Cailee Spaeny, que reputo uma das melhores atrizes americanas de sua geração (vide Priscilla e Alien: Romulus), constrói uma jovem inocente, mas ambiciosa, capaz de, em um estalar de dedos, propor caminhos pouco ortodoxos, que convence em todos os momentos, seja na chantagem do casal mais velho, seja na forma como ela navega o relacionamento com seu noivo. Charles Melton, por seu turno, tem um papel que exige dele uma doçura boba e quase que realmente pura, hesitante e deslumbrada, que parece exigir pouco do ator, mas que, na verdade, exige muito justamente para que ele entregue a única atuação de todas que talvez permita ao espectador genuinamente gostar do personagem, já que todos os demais são deliciosamente execráveis.

Treta retorna sem medo de ser feliz e com a missão de ser tão particular e memorável quanto sua primeira temporada, missão mais do que cumprida por Lee Sung Jin que parece muito claramente entender que sucesso não é desculpa para deitar em berço esplêndido e repetir a mesma fórmula. Com uma história mais ousada, um elenco mais recheado de nomes relevantes e um ritmo próprio que consegue expandir a narrativa, mas sem se perder nos vários galhos dos três troncos de vista, ele entrega um segundo ano que novamente surpreende e engaja o espectador em uma rede de conflitos mundanos que diverte e nos faz refletir. Se houver uma terceira temporada, que ela seja tão diferente desta quanto esta foi da anterior.

Treta – 2ª Temporada (Beef – EUA, 16 de abril de 2023)
Criação: Lee Sung Jin
Direção: Jake Schreier, Lee Sung Jin, Kitao Sakurai
Roteiro: Lee Sung Jin, Anna Ouyang Moench, Gene Hong, Madeleine Pron, Ethan Kuperberg, Alex Russell,  Carrie Kemper, Niko Gutierrez-Kovner
Elenco: Oscar Isaac, Carey Mulligan, Cailee Spaeny, Charles Melton, Youn Yuh-jung, Seoyeon Jang, William Fichtner, Matthew Kim, Mikaela Hoover, Song Kang-ho, Michole Briana White, Greg Benson, Jason Her, Fernanda Andrade, Benny Blanco, Baron Davis, Michael Phelps, Eduardo Franco, Suni Lee, Finneas O’Connell, Hot Chip
Duração: 349 min. (8 episódios)





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