Análise detalhada de Doctor Who: Na Praia Fantasma destaca elementos-chave da trama

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O terror britânico tem uma relação muito particular com a paisagem pós-industrial: o abandono de um lugar que já foi produtivo cria uma espécie de vazio que a ficção de horror aproveita bem demais, e é esse vazio que Niel Bushnell usa como ponto de partida para esta aventura chamada Na Praia Fantasma, da série Audio Originals (BBC). A praia química de Seaham, no condado de Durham, foi durante décadas um dos territórios mais contaminados da costa inglesa, com resíduos de mineração enterrados na areia, e Bushnell a utiliza como impulso para o drama. É neste lugar que as aparições aparecem e onde os moradores passam a ter pesadelos. E é também neste chão envenenado que o 15º Doutor e Ruby Sunday começam a perder sua identidade (o que torna tudo ainda mais curioso é que é uma aventura que vem após 73 Jardas). A perda de identidade é o coração do enredo. Aqui, o Doutor absorve as memórias de William Finkel, um minerador local, enquanto Ruby é invadida pelas lembranças falsas de Charlotte Wilson, e as cenas em que os dois precisam se trazer mutuamente de volta à realidade têm uma carga emocional fantástica, embora o texto não tenha essa dinâmica como centro das atenções.

A entidade alienígena responsável por tudo isso acontecer é Kassif, que persegue o Doutor e Ruby e é apresentada como uma consciência cuja própria linguagem mata a identidade de quem a ouve, uma ideia com potencial narrativo considerável, mas que Bushnell parece não dar a mínima, fazendo com que Kassif chegue ao fim da história sem boas explicações e com momentos de ação tão intrincados que irritam o espectador. Eu adoraria ter algo mais simples, que colocasse o vilão agindo em uma única frente, sob um único dispositivo, do que lidar com várias situações que terminam insatisfatórias. A narração de Susan Twist é um dos pontos positivos do trajeto e a maneira como a relação entre o Doutor e Ruby é construída também merece destaque. Isso não apaga a pressa com que as coisas acontecem no final, mas pelo menos deixam o acompanhamento da história na linha do suportável, a despeito de mediana, em termos de qualidade geral do projeto.

O terror das aparições em Seaham toca numa ansiedade muito contemporânea, a da identidade como algo cheio de aberturas e vulnerável a forças que mal compreendemos, o que nos faz usar enredos como este para um diálogo com a lógica da 2ª Nova Série de DW, obcecada com memória, origem e o quanto sabemos de verdade sobre quem somos. A entidade Kassif poderia ser o tipo de antagonista que sustenta essa conversa com notável peso filosófico, uma consciência tão radical que sua própria linguagem mata. Corta para a medíocre resolução que Bushnell encontrou para ela, num contexto intrincado e sem força, desperdiçando uma ideia que, nas mãos certas, poderia ter elevado o episódio. Algumas cenas aqui deixam a gente com medo e o tratamento para a ação dos fantasmas locais na memória do Doutor, Ruby e dos moradores está entre as melhores sequências. Por isso, é ainda mais decepcionante chegar ao final e ver que a compensação de tudo isso é enrolada, apressada e bobinha demais para uma entidade tão poderosa.

Doctor Who: Na Praia Fantasma (Audio Originals #27) – On Ghost Beach — Reino Unido, 7 de novembro de 2024
Roteiro: Niel Bushnell
Elenco: Susan Twist
Duração: 70 minutos





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