Performances artísticas são, por definição, efêmeras. Raras se tornam clássicas —aquelas que, reencenadas, mantêm sua força em diferentes épocas e contextos. Um desses casos é “Entrevidas”, da brasileira Anna Maria Maiolino. Em 1981, a artista dispôs ovos numa calçada do bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, e caminhou entre eles. Equilibrar-se sem quebrá-los ressoou como um protesto silencioso, mas eloquente, contra a ditadura militar brasileira.
Uma nova versão do clássico foi apresentada em “Terra Poética”, a exposição que Maiolino inaugurou em março no Maat, Museu de Arquitetura, Arte e Tecnologia de Lisboa. Os ovos foram dispostos numa calçada à beira do rio Tejo, e vários convidados da artista caminharam entre eles com as mãos erguidas. “Com essa loucura que está o mundo, com todas essas guerras, com toda a violência contra a mulher, com as balas perdidas nas grandes cidades, levantar as mãos é um pedido de paz”, disse a artista à Folha.
A nova exposição em Lisboa integra ideia, gesto e realização. Na rampa que dá acesso ao espaço expositivo estão dispostos vários desenhos de Maiolino da série “Tempestade de Ideias”. “É uma espécie de ‘storyboard do pensamento’. Eu sempre levo um caderninho comigo e revisito, o tempo todo, o que pensei um mês atrás, um ano atrás”, diz Maiolino.
“Tempestade de ideias é isso mesmo, são ideias esboçadas que poderiam virar uma escultura, uma instalação, um poema, um objeto. São resíduos de pensamento”, afirma a artista em entrevista por zoom, enquanto modela em barro uma nova escultura —a qual, informa, nasceu de um desenho anterior.
Nas esculturas dispostas na enorme galeria central do Maat —um dos três principais complexos de arte contemporânea de Lisboa— reconhece-se o tempo todo o gesto de amassar o barro. “A ação das mãos é a mesma de um pão feito em casa, um espaguete feito em casa”, diz Maiolino, brasileira nascida na região italiana da Calábria. “Eu me acho uma mulher doméstica, uma mãe de família, uma avó de família, metida a artista”, brinca.
“Há uma coisa muito importante no processo dela, que é o regresso à infância”, afirma João Pinharanda, um dos dois curadores da exposição portuguesa. “É uma história que ela sempre conta, das dificuldades da guerra, da mãe sempre a cozinhar para os dez filhos que tinha, sempre na cozinha a fazer rolinhos de nhoque e massa.”
Pinharanda, um dos mais importantes curadores portugueses, é também diretor do Maat. O convite inicial a Maiolino se deu em 2024, quando a artista foi homenageada com o Leão de Ouro da Bienal de Veneza. Sem ser uma retrospectiva, é a primeira exposição da artista num museu em Portugal. Fica em cartaz até o dia 31 de agosto.
“Ela sempre fala da questão do barro como matéria primeira da ideia do Gênesis, a criação do homem”, diz Pinharanda. “No meu texto para o catálogo, eu tive uma intuição de que este barro é outro, é o do homem que teve que trabalhar quando Deus o expulsou do paraíso. O barro do suor. Ela fala muito disso, da intensidade do trabalho. E também do seu aspecto lúdico.”
A exposição “Terra Poética” tem 15 esculturas inéditas, entre as maiores que Maiolino já criou. A artista de 84 anos trabalha com uma equipe de vários assistentes. “Não sei se você é do campo, mas quando se trabalha em conjunto há uma alegria grande, eu me recordo das colheitas da minha infância, em que ficava sentada em um monte de grãos, e as pessoas cantavam, falavam e brincavam”, afirma a artista. “Havia uma alegria, e isso me deixa sempre muito feliz, porque eu só acredito no trabalho quando há alegria, não sofrimento.”
Há uma coerência nas esculturas da exposição, onde se mesclam elementos cilíndricos, que lembram serpentes, com pequenas bolas de barro amassado. Pontos e linhas, elementos da linguagem básica dos desenhos. A maior delas surpreende ao combinar vários tons terrosos.
“Eu não sou uma colorista. Mesmo que tenha feito telas, sou muito alto contraste. Até como pessoa, acho que não tenho meios tons. Sou ou sim ou não”, diz Maiolino. “Há um tempo tinha um projeto de fazer uma escultura moldada com as várias terras do Brasil. Não tive dinheiro para viajar. Mas agora em Portugal tive a possibilidade de ter argila com cores diferentes, e decidi experimentar. Para mim, cada exposição é uma experimentação.”
Maiolino já experimentou em diversas linguagens. Desenho, pintura, escultura, vídeo, poesias. O estímulo para anotar ideias em cadernos veio do artista plástico Hélio Oiticica, que ela conheceu quando viveu em Nova York no final dos anos 1960. Entre tarefas domésticas e passeios na cidade com os filhos pequenos, a artista desenhava e também escrevia. As palavras saíam em italiano, inglês e português. Além das ideias que se materializaram em arte, os textos deram origem a um livro de poemas.
Como um refrão recorrente, a performance “Entrevidas” se repete e se renova nas diversas fases de Maiolino. Foram 22 versões ao todo, nos cálculos de Lívia Gonzaga Bertuzzi, assistente da artista. Em 2023, no Staatliche Museen de Berlim, Gabriel Sitchin, neto de Maiolino, convidava pessoas da plateia para caminhar com ele. Dez anos antes, na cidade francesa de Metz, bailarinos contemporâneos criaram uma coreografia sobre os ovos dispostos no chão.
Depois de inaugurar em Lisboa a exposição “Terra Poética”, “Entrevidas” atravessará o Atlântico para ancorar no Rio de Janeiro, no próximo dia 7 de maio, no Museu do Amanhã. A nova versão certamente dialogará com o momento político, sem deixar de lado o aspecto lúdico —como Maiolino sempre faz questão de ressaltar, a alegria é a prova dos nove de sua criação artística.