Grupo Tarancón comemora 50 anos do lançamento do seu disco de estreia

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Na década de 1970, o Brasil vivia um de seus períodos mais difíceis, com a mão forte da ditadura militar controlando e censurando tudo o que soasse a denúncia social, direitos humanos ou democracia plena.

Não votávamos para presidentes da República, que eram desde 1964 militares escolhidos entre seus pares e referendados por um Congresso Nacional anêmico no qual poucos parlamentares conseguiam levar algum alento de quem sabe, um dia, pudéssemos respirar ares de liberdade. A América Latina como um todo vivia problemas semelhantes, com seus intelectuais e artistas sendo perseguidos, suas vozes caladas —por bem ou, mais frequentemente, por mal— e os cantos de resistência sendo apenas sussurros pelas arenas alternativas que se revezavam burlando o olhar das casernas.

Um desses cantos que ouvíamos por aqui era o do grupo Tarancón, que neste 2026 completa 50 anos da gravação de seu primeiro disco, uma bolacha de vinil que tinha o título de “Gracias a la Vida”, a canção mais famosa da compositora chilena Violeta Parra, imortalizada na potente voz de Mercedes Sosa. A efeméride será oficialmente celebrada no próximo dia 5 de junho, em Belo Horizonte.

Esse primeiro disco, que na época saiu pela gravadora independente Star, foi inspirado no show que o Tarancón havia feito em 1975 no Tuca, teatro da PUC-SP, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O espaço era então um dos mais relevantes centros de resistência contra a ditadura militar, acolhendo desde apresentações dos ainda recém-chegados Gilberto Gil e Gal Costa à icônica peça “Vida e Morte Severina”, de João Cabral de Melo Neto, com músicas de Chico Buarque.

Em 1977, o Tuca acolheu o 3° Encontro Nacional de Estudantes, evento clandestino (pero no mucho) que acabou em pancadaria policial e prisão de cerca de 700 estudantes e professores. Logo depois, um incêndio criminoso acabou com o espaço original.

Mas a música continuou a soar pelos espaços alternativos e o Tarancón era um símbolo que reunia em suas apresentações todos os que nos reconhecíamos como progressistas e inspirados combatentes pela democracia. Cantar as canções do grupo a pleno pulmão era uma forma de expulsarmos os demônios que nos espreitavam desde os quartéis.

Pelos palcos e plateias do Tarancón, naquela década, passaram nomes como os escritores Gabriel García Márquez e Eduardo Galeano, e a própria Mercedes Sosa, que fez com o grupo sua primeira apresentação no Brasil —até hoje, a irresistível “Volver a los 17”, da chilena Violeta Parra, é um dos hits obrigatórios de toda apresentação do grupo. E, sim, para quem viveu tudo aquilo, o show é uma volta ao passado, em versão modernizada, com jogos de luz e uma profusão de microfones para os muitos instrumentos tocados como flautas quenas e zamponhas, charangos e muita percussão.

Já nos anos 1980, enquanto o Brasil fervia pelas Diretas Já, foi o Tarancón que se apresentou no primeiro comício da campanha em São Paulo, realizado no dia 27 de novembro de 1983, na praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu. O ato reuniu cerca de 15 mil pessoas, segundo registros da época, e marcou o início das manifestações suprapartidárias, diante de milhares de pessoas que cantavam a plenos pulmões “Te recuerdo Amanda”, do também chileno Victor Jara, assassinado pela ditadura de Augusto Pinochet. À espreita, 1.500 policiais armados.

Curiosamente, a moçada que perseguia as apresentações do Tarancón ganhou até um apelido, cunhado pelo rabugento colunista e crítico carioca Telmo Martino (1930-2013), que em suas diatribes no diário paulista Jornal da Tarde, então no auge, a chamava depreciativamente de “a turma do poncho-e-conga”, alternando como os “barba-e-bolsa”. Ponchos, até hoje alguns ainda guardam os seus no fundo dos armários, à espera de um frio cada vez mais improvável. Já o conga, aquele tênis mais popular, se transformou em modelo vintage copiado e cobrado aos olhos da cara nas vitrines dos santacecilers atuais. Já barbas e bolsas migraram em versões de vários cifrões para o figurino dos farialimers. Sigamos.

Segundo o fundador do grupo e único membro original ainda na ativa, Emílio de Ángeles, o Tarancón nasceu “basicamente de uma brincadeira, não era a intenção fazer um grupo profissional, era algo para tocar e levantar uma grana nos fins de semana”. Um amigo que havia trazido muitos discos dos países latinoamericanos encantou os colegas, que começaram a se apresentar no circuito alternativo de São Paulo —centros acadêmicos, diretórios etc. De São Paulo seguiram para o interior e “daí a pouco a estrada virou nossa amiga de profissão e começamos a viver de música”.

Emílio lembra que, como era de se esperar, o grupo teve inúmeros problemas com a censura. “Tinha um monte de música proibida, nas era algo muito sem sentido para nós”, conta, “porque havia músicas folclóricas que acabavam censuradas, enquanto outras mais diretas, de repente, passavam sem problemas”. Ele desconfia que “talvez os caras não soubessem ler, interpretar…”

Conversando com Emílio depois da apresentação do grupo no Sesc 24 de Maio, no domingo (19), a reportagem quis saber o que ele via como principal mudança no público do Tarancón ao longo desses 50 anos. “Mudou muito, ficou mais velho”, responde rindo, em referência aos muitos cabelos grisalhos que ocuparam a maior parte da plateia naquela noite. “Mas tem uma coisa muito legal que é o fato de os que chegaram a nós nos anos 1970, ou nos 1980, hoje trazerem seus filhos, seus netos, e isso é uma coisa importante, porque Tarancón não toca nas rádios normais, só nas independentes ou ligadas à cultura latinoamericana, então a divulgação sempre foi boca a boca”.

Se Emílio é o pioneiro, o membro mais novo da trupe é Jam Miranda, que com 21 anos representa, ao lado da cantora Maitê Miràh, 38, filha da cantora original do grupo, Míriam Miràh, falecida em 2022, a nova geração de componentes. Entre eles estão ainda Ademar Farinha, Jonathan Andreoli, Jorjão Miranda e Natália Gularte. E como é para jovens, que nem eram nascidos quando o Tarancón surgiu, se unirem a essa trajetória?

“De uns tempos para cá, vem surgindo em minha geração um novo debate sobre o Brasil se reconhecer latinoamericano”, explica Jam. “E se a gente pensar bem, muitas de nossas músicas, infelizmente, estão muito atuais em relação aos problemas sociais, músicas que Violeta Parra escreveu há 70 anos, de alguma forma, ainda explicam o que é a América Latina hoje, os problemas são os mesmos, então o trabalho se renova por si só”.

Essa é também a visão de Emílio, que avalia, meio brincando, meio sério, que boa parte da retomada do interesse do público pelo repertório latinoamericano ocorre “graças ao Donald Trump“, presidente americano que desde que assumiu o cargo persegue ferrenhamente os imigrantes latinos nos Estados Unidos. “Ele está sendo malvado com a América Latina”, comenta, “então as pessoa começam a pensar que a América Latina junta, unida, deve ser uma coisa boa”.



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