Lavínia Pannunzio assume a direção da montagem de Betrayal, peça de Harold Pinter, em 2026

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“Betrayal”: um teatro da sobrevivência silenciosa

A peça “Betrayal”, sob a direção de Lavínia Pannunzio, revela que o verdadeiro drama não está no que se fala, mas no que se silencia. Estruturada de forma invertida, a narrativa começa pelo fim, convidando a plateia a desvendar, passo a passo, as origens de um amor marcado pela traição e pela brutalidade das relações humanas. O palco não é mero cenário, mas um espaço de intensa arqueologia emocional, onde as ausências e os eus ocultos ganham voz.

Minimalismo cênico como ferramenta de profundidade emocional

Com um cenário reduzido ao essencial, o elemento central é um sofá de seis metros, que cria uma barreira física e simbólica entre os personagens. Essa escolha estética intensifica o peso do silêncio e das respirações, transformando o palco em um laboratório de afetos complexos. O público se torna cúmplice a cada revelaçã, escavando os vestígios de um passado doloroso e oculto sob a superfície das palavras não ditas.

A vigilância constante dos três atores em cena

Uma das marcas mais impactantes da montagem é manter os três protagonistas — Emma, Robert e Jerry — sempre presentes no palco. Essa decisão cria uma vigilância mútua e permanente, enfatizando que, em questões como amor e traição, a solidão completa é impossível. O “outro” permeia os gestos e olhares, mesmo quando não está diretamente envolvido na fala ou na ação.

Emma: uma personagem longe dos clichês

Interpretada por Luiza Curvo, Emma se distancia da imagem estereotipada da “infiel”. Ela é uma mulher em luta constante para equilibrar seus desejos diante de uma rede complexa de lealdades e tensões. Sua atuação desafia o público a entender as nuances de uma relação marcada pela ambiguidade e pelo desconforto moral, rejeitando respostas fáceis ou julgamentos simplistas.

A fragilidade da fraternidade masculina

Leonardo Brício e Diego Machado dão corpo a duas figuras masculinas em processo de esfacelamento emocional. A peça mostra a lenta corrosão da confiança e a culpa mascarada por uma falsa intimidade. A química entre os dois atores é o espelho de uma amizade que ruiu sob o peso do segredo, refletindo a complexidade das relações masculinas diante das traições afetivas e éticas.

Miranda Diamant e o contraponto contemporâneo

A presença de Miranda Diamant traz uma dimensão inesperada e simbólica para a peça. Seja como a garçonete que assiste silenciosa à tensão em Veneza ou pelo uso da Libras na cena final, ela simboliza o olhar atento da sociedade e da consciência que tudo observa. Sua figura questiona o machismo e o status quo, adicionando uma camada crítica e contemporânea que reforça o impacto da narrativa.

O silêncio como linguagem teatral e ética pública

O silêncio na montagem é cuidadosamente esculpido pela iluminação de Sarah Salgado e a sonoridade de Rafael Thomazini. Não é ausência, mas presença expressiva que marca o instante exato em que as conexões humanas se rompem. Essa abordagem reforça a potência do teatro como espaço onde a intimidade deixa de ser só pessoal e vira questão pública de ética e responsabilidade.

A visão de Lavínia Pannunzio sobre “Betrayal”

Para a diretora, o palco funciona como uma autópsia das relações, onde se investiga o “germe do veneno”. O foco está nas tensões que permeiam o triângulo amoroso e a violência oculta sob a superfície cultural e intelectual. A escolha de manter os três atores em cena é para evidenciar a presença constante do “terceiro” nas interações e a impossibilidade de coragem emocional sem vigilância e testemunho.

A reinvenção da peça clássica com linguagem atual

A tradução de Luiz Frias preserva a aspereza original do texto de Pinter, permitindo uma releitura sofisticada das brutalidades subjacentes à trama. A inclusão do uso de Libras e a estética punk — símbolos de resistência e quebra de normas — renovam uma obra de 50 anos, conectando seu discurso a debates atuais sobre machismo, liberdade e diversidade nas relações humanas.


Betrayal está em cartaz no Teatro UOL, Avenida Higienópolis, 618, até 31 de maio. Com duração de 80 minutos e classificação indicativa de 14 anos, a peça oferece um convite profundo e inquietante para refletir sobre os vínculos que nos moldam e as fissuras que carregamos por dentro. Uma experiência teatral para quem busca mais do que entretenimento: uma imersão no que nem sempre ousamos revelar.

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