A volta impactante de “Oleanna” aos palcos paulistanos
Após mais de três décadas, a peça “Oleanna”, escrita por David Mamet, retorna ao teatro em São Paulo com uma montagem ousada que convida o público a refletir intensamente sobre temas urgentes e controversos. O espetáculo, escolhido pelo ator e produtor Velson D’Souza, que estudou a obra durante seu mestrado em Nova York, traz à cena um debate vigente sobre poder, comunicação e justiça, realizado em um espaço alternativo do Teatro Vivo.
Uma montagem inovadora que desafia a experiência do público
Diferente das encenações tradicionais, esta montagem dispôs as duas plateias em corredores opostos, frente a frente, com a ação centralizada entre elas. Essa disposição não só provoca uma imersão intensa, mas também transforma o espectador em parte do jogo cênico, onde todos observam e são observados. A configuração busca radicalizar a questão proposta pela dramaturgia: até que ponto uma mesma verdade pode ter múltiplas versões?
A trama que provoca inquietações profundas
A narrativa gira em torno do confronto entre John, um professor universitário prestes a conquistar uma promoção, e Carol, uma aluna que, enfrentando dificuldades acadêmicas, acusa-o de sexismo, elitismo e assédio sexual. Mamet explora com maestria as falhas na comunicação e os complexos jogos de poder que permeiam ambientes acadêmicos, deixando espaço aberto para interpretações conflitantes e dúvidas inevitáveis.
Relevância atual e um legado teatral
A peça estreou no Brasil há 30 anos com nomes consagrados como Antônio Fagundes e Mara Carvalho. Em 2018, outra montagem marcou a capital paulista, e agora, em 2026, D’Souza divide o palco com Julianna Gerais, sob a direção firme de Daniela Stirbulov. O retorno de “Oleanna” ocorre em um momento crítico, quando as discussões sobre cancelamento, politicamente correto e o avanço da quarta onda do feminismo ganham destaque nas redes sociais e na sociedade.
Temas delicados e atuação comprometida
Velson D’Souza reforça que o texto expõe as pequenas violências de homens em posições de poder, muitas vezes não intencionais, mas impactantes. A diretora Daniela Stirbulov exigiu que os atores se entregassem integralmente para dar conta da complexidade dos temas abordados. Julianna Gerais, atriz negra de destaque nos palcos e audiovisual, destaca que seu envolvimento na peça é também uma manifestação política sobre as fragilidades da comunicação humana e dos conflitos interpessoais.
Um espetáculo feito para provocar dúvidas e debate
Segundo Daniela Stirbulov, o espetáculo não oferece certezas. O público é estimulado a sair da sala com inquietações e diferentes interpretações, refletindo sobre as múltiplas dimensões da verdade e os limites das relações humanas. A montagem reforça a potência do teatro como espaço para desafios intelectuais e confrontos emocionais, especialmente em tempos de discussões afiadas sobre gênero, poder e ética no convívio social.