Bethânia Pires Amaro e a conquista do Prêmio Jabuti
Bethânia Pires Amaro subiu ao palco do Auditório Ibirapuera com a filha no colo para receber o Prêmio Jabuti por seu livro de estreia, “O Ninho”. O momento emocionou pela força da autora baiana, que conciliava a maternidade com o reconhecimento de sua obra, premiada como uma das melhores da literatura brasileira em 2024. A história de uma mulher que enfrentou a solidão e os desafios da maternidade sem rede de apoio, tema central de sua obra, ganha vida na trajetória de Bethânia.
Uma escritora entre São Paulo e Brasília
Quando Aurora, sua filha, nasceu, Bethânia recebeu a notícia de que seu marido assumiria um cargo no Senado em Brasília. Isso significava criar sua primeira filha em São Paulo, longe da família e sem apoio. Essa experiência pessoal reforça o forte caráter autobiográfico de “O Ninho” e influenciou a narrativa que fala sobre a solidão e o fardo das mulheres sobrecarregadas, tema sensível e atual que ressoa com diversas mães pelo país.
“Ressalga”: a estreia no romance
Agora, como autora convidada da programação principal da Flip, Bethânia lança seu primeiro romance, “Ressalga”. A obra amplia sua investigação literária sobre as raízes e as cicatrizes da história familiar. O romance acompanha três gerações femininas na Bahia, revelando uma trama complexa de erros, violências e superações marcadas pela ausência e brutalidade masculinas, além do machismo estrutural e do preconceito social.
Três gerações em confronto com o destino
O enredo de “Ressalga” segue Janaína, uma mulher nascida no interior da Bahia; Graça, sua filha, que assume um nome novo e se eleva ao comando de um bordel em Salvador; e Flora, a neta que volta às origens para entender a força das matriarcas em sua vida. A história expõe o ciclo repetitivo de violência naturalizada, não só entre homens e mulheres, mas também entre mulheres, mostrando críticas e padrões que marcam para sempre.
A oralidade baiana e a narrativa envolvente
A escrita de Bethânia é marcada por um ritmo que reverbera a oralidade da Bahia, doce e cadenciada, mas intensa. Com parágrafos longos que convidam o leitor a uma imersão quase hipnótica, o romance se desenrola como uma conversa prazerosa, repleta de gírias, apelidos e palavrões que revelam a autenticidade do cenário. É um convite a conhecer o cotidiano, as lendas e as contradições da cultura baiana.
Realismo mágico e história do Brasil
Em “Ressalga,” elementos de realismo mágico permeiam a trama, com personagens que flutuam entre o fantástico e o histórico. A figura da Garça Preta, inspirada em uma prostituta lendária de Salvador, mistura-se à memória local de uma mulher misteriosa que vestia um hábito roxo. O romance ainda toca em episódios históricos controversos, incluindo possíveis conexões com a morte do presidente Getúlio Vargas, ampliando o alcance da narrativa para além do regional.
Fabulação e a busca pela verdade cultural
Para Bethânia, a fabulação é essencial para entender as múltiplas verdades do Brasil. Ao explorar a boemia e a prostituição na Bahia, a autora investiga como essas mulheres sobreviveram em meio à repressão, conectando passado e presente. Flora, a protagonista, emerge desse turbilhão como símbolo das consequências que moldam gerações, enquanto a obra desafia o leitor a questionar as formas de violência e os legados familiares, encerrando uma trajetória de dor, resistência e esperança.