Série ‘Nino de Sexta a Segunda’ busca recriar sucesso e formato de ‘Cléo das 5 às 7’

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“Nino de Sexta a Segunda”: uma homenagem e um desafio ao clássico de Agnès Varda

O filme “Nino de Sexta a Segunda” retoma a proposta de Agnès Varda em “Cléo das 5 às 7”, emblemático da Nouvelle Vague. Ali, a personagem percorre as ruas de Paris por quase duas horas, enquanto espera o resultado de exames médicos decisivos. No filme de Loquès, Nino recebe o diagnóstico de câncer logo numa sexta-feira e tem até segunda-feira para iniciar o tratamento, marcando um percurso temporal e emocional intenso.

Mudança no olhar sobre o câncer

Diferente dos anos 1960, quando o câncer era uma sentença de morte quase inevitável, hoje a doença é encarada com uma nova perspectiva, embora ainda carregue seu peso existencial. No filme, a médica de Nino confirma que não há metástase e que a quimioterapia pode resolver o caso, transformando o câncer numa condição séria, porém controlável. Essa mudança reflete um olhar contemporâneo sobre a doença, onde a questão deixa de ser “se vou ter câncer” e passa a ser “quando isso vai acontecer”.

O cotidiano diante da adversidade

A narrativa de “Nino de Sexta a Segunda” se foca nas pequenas batalhas diárias: a perda da chave de casa, o contato falho com o zelador, visitas à família e encontros com amigos. Esses eventos banais carregam o peso da rotina que se mantém mesmo diante do diagnóstico, revelando uma tensão entre a vida que segue e a sombra da doença. A ambientação restrita e noturna reforça a sensação de intimidade e introspecção, sem apelar para melodramas ou sustos.

Comparação inevitável com “Cléo das 5 às 7”

O filme de Varda, além de ser pioneiro ao tratar de um tema tabu, é notável pela sincronização quase exata entre a duração da vida da personagem e a duração do filme, criando um mergulho realista e imersivo na experiência. Varda, famosa documentarista, usa Paris como personagem coadjuvante, adicionando beleza e autenticidade. Essas qualidades fazem de “Cléo” um clássico difícil de ser igualado, e a obra de Loquès sente essa comparação inevitável, apresentando-se com menor impacto emocional e narrativo.

A rotina da doença e a finitude

“Nino de Sexta a Segunda” aponta para o que talvez seja o maior legado do nosso tempo em relação ao câncer: ele é uma ameaça constante, uma possível presença futura para muitos. Essa rotina particular atinge a profundidade do ser, tocando o medo da finitude sem abrir mão da esperança. A metáfora da perda da chave representa o afastamento momentâneo de si mesmo, forçando Nino a buscar suporte fora de seu isolamento, um caminho para enfrentar a nova realidade.

O desafio do filme diante do espectador

A abordagem sóbria do filme, que evita dramatizações exageradas, pode parecer frouxa frente à força do material original e à gravidade do tema. Ainda assim, há momentos que capturam a ambiguidade emocional entre medo e normalidade, solidão e convivência. O filme não pretende assustar, mas provocar reflexão sobre como nos posicionamos diante do câncer moderno – uma doença complexa, delicada e ao mesmo tempo passível de enfrentamento.

Para além do remake: um convite à reflexão

Embora “Nino de Sexta a Segunda” tenha limitações narrativas e a inevitável sombra do clássico que o inspira, ele cumpre um papel contemporâneo essencial. O filme oferece uma perspectiva atualizada sobre o impacto do câncer na vida das pessoas jovens, especialmente num mundo onde a doença deixa de ser apenas uma sentença definitiva e passa a ser uma experiência que, mesmo temida, pode ser vivida com alguma normalidade e esperança. Essa nova visão é seu maior mérito e o chama para o debate sobre saúde, tempo e existência em nossos dias.

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