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Nem Rio, nem São Paulo: Goiânia vira território mais letal para torcidas organizadas

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Levantamento com base em decisões judiciais, registros policiais e reportagens revela ao menos 24 mortes ligadas a conflitos entre organizadas na capital goiana nos últimos 15 anos

 Goiânia carrega um rótulo que não aparece nas tabelas do futebol, mas que se consolidou fora dos estádios: tornou-se um dos ambientes mais perigosos do país para quem integra torcidas organizadas. O que deveria ser espaço de festa, pertencimento e cultura de arquibancada, nas últimas décadas passou a ser associado a emboscadas, execuções e uma vigilância estatal permanente que, em alguns casos, também terminou em morte.

Um levantamento realizado pelo PELEJA a partir de decisões do Tribunal de Justiça de Goiás, registros de segurança pública e reportagens publicadas entre 2011 e 2026 aponta que, somente nesse período, ao menos 24 mortes têm relação direta ou indireta com conflitos entre torcedores organizados na capital. O número pode ser ainda maior devido à subnotificação e à dificuldade de vincular formalmente alguns crimes à rivalidade entre grupos.

As duas maiores organizadas do estado — Força Jovem do Goiás (FJG) e Esquadrão Vilanovense (TEV) — aparecem de forma recorrente nesse histórico, que atravessa mais de uma década e meia de confrontos que, na maioria das vezes, aconteceram longe dos estádios, em bairros periféricos, ruas residenciais e comércios locais.

O Memorial da Guerra: vítimas de 2011 a 2026

Para entender o porquê de Goiânia ser um “território minado” para os torcedores, é preciso dar nome e rosto às estatísticas. Abaixo, detalhamos algumas mortes confirmadas e as suspeitas de autoria registradas nos últimos 15 anos.

Somente no período entre 2011 e 2018, marcado pela consolidação do modelo de emboscadas em bairros, o portal Mais Goiás fez um levantamento que apresentou um saldo de 19 mortes em confrontos de torcidas no Estado. Entre as vítimas emblemáticas estão:

  • Kaio Lopes de Oliveira (19 anos – Goiás): Morreu baleado no dia 1º/05/2011. Outros dois torcedores também foram baleados. É o primeiro caso deste levantamento.
  • Jhonatan Diego de Sousa Silva (17 anos – Vila Nova): Morreu baleado três dias depois do primeiro crime, possivelmente em vingança à morte de Kaio.
  • Lucas Arantes de Moraes (17 anos – Vila Nova): Namorava a filha do presidente da torcida rival, segundo o Mais Goiás. Foi morto em 25/06/11.
  • Josemir Clementino (33 anos – Vila Nova): Exercia o cargo de vice-presidente da Torcida Sangue Colorado quando foi morto a tiros em uma festa da torcida no dia 09/10/11.
  • Pâmella Volpato (17 anos – Goiás): Namorava um integrante da Força Jovem do Goiás e teria sido morta por um tiro endereçado ao seu companheiro em 06/11/11. É a única vítima do sexo feminino.
  • Evandro Rodrigues Cavalcante (37 anos – Goiás): Ex-presidente da Força Jovem do Goiás, foi assassinado em casa, no dia 22/09/2014. Segundo o Mais Goiás, ele foi apontado como responsável pela morte de Lucas Arantes, seu então genro e rival.
  • Ryan Borges Nascimento de Oliveira (17 anos – Vila Nova): Última vítima do levantamento do Mais Goiás publicado em 2018. Morreu em novembro daquele ano após ficar sete dias internado por ter sido espancado por rivais.

A escalada 2019-2026

O levantamento do PELEJA identifica a continuidade das mortes, muitas vezes ocorridas em datas sem jogos ou distantes das praças esportivas:

  • Rondinelly Borges de Oliveira (22 anos – Goiás): Morto a tiros antes de um clássico contra o Vila Nova em janeiro de 2019.
  • Helênio Rodrigues Cardoso Filho (28 anos – Goiás): Baleado na saída do Estádio Serra Dourada após o jogo contra o Flamengo em novembro de 2019. O suspeito do disparo foi um Policial Civil.
  • Mateus (16 anos): Assassinato em 2020 com suspeita de relação com conflitos de organizadas.
  • Tentativa de homicídio em Aparecida de Goiânia (2020): Conflito entre esmeraldinos e colorados com atropelamento e tiros.
  • Torcedor do Goiás (02/04/2022): Torcedor do Goiás morto com uma facada no peito em Aparecida de Goiânia em abril.
  • Rodrigo Cavalcante (17 anos – Goiás): Morto em uma emboscada no dia 23/03/2026. Quatro torcedores do Vila Nova foram presos na última terça-feira (6) sob suspeita de terem participado desse crime.
Torcedores do Vila Nova presos sob suspeita de matar o esmeraldino Rodrigo Cavalcante
Torcedores do Vila Nova presos sob suspeita de matar o esmeraldino Rodrigo Cavalcante (Foto: Reprodução/PCGO)

A violência não parou: de 2019 a 2026

O levantamento mostra que a escalada de mortes continuou mesmo após sucessivas ações do poder público.

Há registros de torcedores mortos a tiros antes de clássicos, assassinatos ocorridos após jogos de grande porte e até casos em que a intervenção policial terminou em morte. Em 2019, um torcedor do Goiás foi baleado fatalmente na saída do Estádio Serra Dourada, e o suspeito do disparo era um policial civil.

Também há registros de tentativa de homicídio em Aparecida de Goiânia, torcedor morto a facadas em 2022 e, mais recentemente, em março de 2026, a morte do jovem Rodrigo Cavalcante, de 17 anos, em uma emboscada. Quatro suspeitos foram presos dias depois.

Quando a repressão vira parte da narrativa

Diante do histórico de confrontos, o Estado ampliou o monitoramento. O Ministério Público passou a solicitar torcida única com frequência, decisões judiciais suspenderam organizadas por tempo indeterminado e a Polícia Civil criou, em 2023, o Grupo Especial de Proteção ao Torcedor (GEPROT), voltado especificamente para investigar integrantes desses grupos.

Operações como Game Over (2019) e Hooligans (2021) levaram a polícia às sedes e residências de membros das torcidas, tratando os grupos como possíveis núcleos de associação criminosa.

Ao mesmo tempo, casos em que a atuação policial resultou em morte levantaram debates sobre a proporcionalidade do uso da força em ambientes de grande aglomeração.

A morte também alcança lideranças

O histórico mostra que a violência não atinge apenas membros da base das organizadas. Em setembro de 2024, o então presidente da Força Jovem Goiás, Reginaldo Ferreira, conhecido como “Da Ro

Briga de torcidas na arquibancada marcou o primeiro clássico entre Goiás e Vila — Foto: Reprodução/PFC

Por: Redação/PD via PELEJA

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