Gregório de Matos retorna à cena cultural em São Paulo
A peça “Boca a Boca”, em cartaz na Biblioteca Mário de Andrade, dá voz ao poeta barroco Gregório de Matos como nunca antes visto. Após ter sido silenciado, perseguido e exilado no século XVII, sua obra volta a ganhar centralidade ao ocupar um dos símbolos máximos da cultura paulistana, ressoando entre milhares de livros e gerando um diálogo potente entre passado e presente.
Espaço simbólico, palavra renovada
Originalmente criada no Instituto Camões, em Lisboa, em 2015, a montagem percorreu importantes centros culturais como Berlim e Salvador antes de chegar a São Paulo. No ambiente da Biblioteca Mário de Andrade, o espetáculo adquire uma nova dimensão: o lugar, centro do pensamento intelectual da metrópole, reforça a ironia histórica de trazer a “lira maldizente” do poeta para um templo do saber. A obra se transforma em uma invasão poética que reafirma Gregório como uma voz ainda viva e provocadora.
A força transformadora de Ricardo Bittencourt
À frente da interpretação, Ricardo Bittencourt entrega um recital ácido e subversivo, manejando a palavra como uma arma. Sua performance camaleônica alterna entre o humor escatológico das sátiras e a gravidade dos sonetos metafísicos, imprimindo uma energia crua e contemporânea à obra clássica. As sessões, às segundas-feiras às 19h, se tornam um embate entre a tradição literária erudita e a linguagem mestiça e irreverente de Gregório.
Rock’n roll e poesia: uma fusão inédita
Sob a direção musical de Adriano Salhab, a trilha sonora ao vivo traz referências que percorrem de The Doors a Raul Seixas, conectando a virulência barroca de Gregório de Matos à rebeldia do rock. Essa junção cria um espetáculo pulsante onde a poesia é sentida na intensidade das guitarras e batidas, transgredindo o formato tradicional do teatro poético e instigando o público a uma experiência sensorial única.
Adão de Marapé: símbolo de resistência e identidade
A peça também revisita figuras históricas controversas com nova perspectiva. A interpretação de Gui Vieira transforma Adão de Marapé, originalmente um insulto racista de Gregório, em um símbolo de resistência e potência antropofágica. Essa ressignificação crítica destaca o caráter híbrido e complexo da identidade cultural brasileira, provocando reflexão e fechamento de ciclos históricos por meio da arte.
Diálogo cultural ampliado com convidados especiais
O encontro de diferentes vozes da ciência, música e teatro — como Drauzio Varella, Regina Braga e Marina Lima — amplia o impacto da montagem. Essas participações não diluem a força da obra; pelo contrário, confirmam a atualidade do poeta e sua luta contra o obscurantismo. O repertório diverso reforça nuances políticas, religiosas e sociais da poesia de Gregório, conectando gerações e campos do conhecimento.
Uma obra em constante transformação
Desde sua estreia em Lisboa, “Boca a Boca” evolui e se adapta às cidades e públicos que alcança, reafirmando-se como um clássico pulsante. Em São Paulo, especialmente, a montagem revela sua força popular, atraindo desde intelectuais até estudantes da periferia. O lançamento do livro pela Editora Giostri reforça o papel didático do projeto, aproximando novas gerações da obra de Gregório e mantendo sua poesia viva e fundamental para o debate cultural atual.
Informações para o público
A peça acontece às segundas-feiras, às 19h, na Biblioteca Mário de Andrade, localizada na rua da Consolação, 94, na região da República, centro de São Paulo. A temporada vai até 25 de maio, com sessões gratuitas mediante retirada de ingresso uma hora antes. Com duração de 60 minutos, a performance é uma oportunidade imperdível para revisitar a “lira maldizente” que desafia o tempo e os poderes estabelecidos.