Presença ancestral se transforma em enredo, fantasia e resistência cultural nos desfiles do Rio de Janeiro e de São Paulo
O Carnaval brasileiro, além de festa popular e espetáculo artístico, é também um poderoso espaço de memória, fé e identidade. A cada ano, os desfiles das escolas de samba reafirmam a presença dos orixás e das religiões de matriz africana como pilares culturais que ajudaram a construir a história do país — uma herança que pulsa forte nas avenidas e emociona o público.
No Rio de Janeiro, berço do samba e referência mundial do Carnaval, os orixás surgem em enredos que exaltam a ancestralidade africana, a resistência do povo negro e a espiritualidade que atravessou séculos apesar da intolerância religiosa. Ogum, Oxum, Iansã e Xangô deixam os terreiros simbólicos e ganham vida em alegorias grandiosas, fantasias ricas em significado e coreografias carregadas de emoção. Cada desfile se transforma em um ato de respeito e reconhecimento às raízes africanas do Brasil.
Em São Paulo, o movimento segue o mesmo caminho. As escolas paulistanas têm ampliado o espaço dedicado às religiões de matriz africana, trazendo narrativas que dialogam com a história da diáspora, a luta contra o preconceito e a valorização da cultura afro-brasileira. Na avenida, a fé se mistura à arte, mostrando que o samba também é um instrumento de educação, conscientização e afirmação identitária.
Para muitos integrantes das escolas — compositores, ritmistas, passistas e carnavalescos —, falar dos orixás no Carnaval é mais do que uma escolha estética: é um compromisso com a verdade histórica e com a vivência pessoal. São histórias herdadas de avós e bisavós, de terreiros perseguidos no passado e hoje celebrados em rede nacional, diante de milhões de espectadores.
Ao levar os símbolos das religiões de matriz africana para o centro da maior festa popular do país, o Carnaval ajuda a combater estigmas, promove o respeito à diversidade religiosa e reforça a importância da cultura negra na formação do Brasil. Na batida dos tambores e no brilho das fantasias, os orixás seguem desfilando — não apenas como personagens de enredo, mas como guardiões de uma história viva, que se recusa a ser esquecida.
Por: Sidney Araujo