Bienal de Veneza 2026: Brasil enfrenta dores e revela seres fantásticos em sua arte

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De um lado, belos azulejos que, rasgados dramaticamente como se fossem carne, exibem entranhas humanas. Do outro, fotografias do período colonial, entrelaçadas como uma teia, e criaturas metade mulher e metade inseto. Essas são algumas das obras mais emblemáticas das artistas Adriana Varejão e Rosana Paulino, que vão ocupar o pavilhão brasileiro na 61ª Bienal de Veneza, a mais importante mostra de arte contemporânea do mundo, a partir do dia 9 de maio.

Elas apresentam nos Giardini da mostra “Comigo Ninguém Pode”, seleção organizada por Diane Lima, depois de se firmarem como duas das principais artistas plásticas do país. Condecorada com a Ordem do Mérito Cultural, maior honraria pública da cultura, Varejão tem obras nos acervos de instituições como MoMA e Guggenheim, em Nova York. Já Paulino se tornou, no ano passado, a primeira mulher negra a ter uma mostra no prestigiado Malba, na Argentina, lar do “Abaporu”, de Tarsila do Amaral. Suas obras integram também as coleções de instituições como o Tate Modern, de Londres, e Centre Pompidou, em Paris.

Em Veneza, obras já conceituadas das duas se juntam a trabalhos novos e inéditos para explorar como a cultura brasileira, por meio da fé e de crenças fantásticas, processa traumas coloniais. Não por acaso, a planta comigo-ninguém-pode, que dá nome à mostra, tem toxinas que servem como defesa de predadores e pragas —no imaginário popular, ela é conhecida por afastar energias negativas.

Esta será a primeira ocupação do pavilhão brasileiro após a reforma de seu edifício modernista, datado de 1964. Agora, novas aberturas laterais de vidro, presentes no projeto original, possibilitarão a conexão entre o espaço fechado e o jardim —que abrigará duas grandes esculturas inéditas de Paulino e Varejão, feitas em bronze e cerâmica, respectivamente.

A viga que atravessa o telhado do pavilhão, conectando suas duas salas, será preenchida com 12 novas pinturas de anjos de Varejão. “Existe algo de religioso nisso, de olhar para cima e ver essas imagens espantadas, que não têm o caráter angelical que estamos acostumados a ver nas Igrejas, mas são mais dramáticos”, diz a artista.

Apesar das práticas distintas, ela e Paulino têm, em comum, a persistente revisão da história em seus trabalhos. Os azulejos portugueses usados por Varejão são como uma fachada que tenta esconder as violências da colonização, reveladas pela artista ao resgá-los ou rachá-los. Na Bienal, os azulejos vão também exibir, dentro de si, ouro, madeira, terra e plantas, como uma espécie de metamorfose da dor.

No mesmo espaço estarão fotografias da época colonial, organizadas por Paulino como uma teia para refletir sobre a identidade forjada de pessoas negras. Ela também apresentará pinturas em que corpos de mulheres se misturam a insetos ou plantas.

Usar símbolos da natureza, ela diz, é uma forma de representar a psicologia compartilhada de mulheres negras, fruto de histórias de vida semelhantes. Paulino lembra, por exemplo, de observar a mãe costurando a noite toda para bancar os estudos dos filhos. “Eu vi a minha mãe como uma grande aranha, tirando de dentro de si esse movimento de transformação”, lembra.

Em “Ninfa Tecendo o Casulo”, por exemplo, uma mulher com vários seios aparece curvada como uma lagarta, e sua cabeça encosta gentilmente na própria cauda. Ao seu redor, centenas de fios, produzidos por ela mesma, a envolvem. A mulher negra é pensada como tecelã da memória, e tira do próprio corpo o que é necessário para sustentar sua continuidade.

Mais do que apresentar as ruínas da colonização, “Comigo Ninguém Pode” tenta reconstruir a memória por meio de símbolos que remetem ao fantástico. “Essa é uma estratégia, de algum jeito, muito brasileira de pensar esses processos de transformação, de metamorfose. Acreditar em algo que transcenda o visível e a realidade concreta”, diz Lima, a curadora.

Para ela, o Brasil, como um laboratório racial, criou ao longo dos séculos estratégias de resiliência muito ligadas à espiritualidade e à natureza, como provam religiões como o candomblé, originárias do sincretismo entre o catolicismo e religiões de matriz africana. Na última Bienal de Veneza, o pavilhão brasileiro foi ocupado por mantos indígenas de Glicéria Tupinambá.



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