A burguesa solteira, de topete e sobretudo. A mãe, desarrumada e de laço no cabelo. A prostituta, de saia curta e penteado bagunçado. Não é difícil encontrar alguns desses arquétipos femininos em qualquer filme dos anos 1960 e 1970, especialmente naqueles dirigidos por Federico Fellini ou Michelangelo Antonioni.
Foi nessa mesma época que a artista italiana Marcella Campagnano decidiu catalogar os estereótipos de gênero difundidos na cultura e na mídia.
Seus autorretratos vestindo diferentes figurinos estão agora em “Insurgências – Vanguarda Feminista da Década de 1970”, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, o MAC-USP.
Depois de importantes exposições como “Mulheres Radicais: Arte Latino-Americana“, na Pinacoteca de São Paulo, em 2018, e “Histórias das Mulheres“, no Masp, em 2019, a mostra complementa a releitura da história da arte por uma perspectiva de gênero no Brasil ao trazer, de forma inédita, 60 obras da coleção austríaca Verbund.
Ela foi criada em 2004, quando o movimento global para incluir artistas mulheres no cânone da arte ainda era embrionário. Convidada pela companhia de energia que dá nome ao acervo europeu, a curadora Gabriele Schor garimpou trabalhos de artistas de diferentes países que se encaixavam no que ela denominou de “vanguarda feminista” dos anos 1970, período em que criadoras passaram a usar a arte de forma pungente para criticar as opressões sociais.
Eram tempos de mudança, afinal, impulsionados pela segunda onda feminista. Antes confinadas ao lar, as mulheres ocupavam cada vez mais o mercado de trabalho, mas ainda eram responsabilizadas pelos afazeres domésticos. Enquanto isso, a invenção da pílula anticoncepcional possibilitava o sexo sem fins reprodutivos e aquecia o debate em torno da emancipação feminina.
No Brasil, era legalizado o divórcio. Na Áustria, o direito de abrir uma conta no banco sem autorização do marido era conquistado. Foi nesse momento que a artista Renate Bertlmann, por exemplo, zombou do casamento e da gravidez ao performar uma espécie de noiva zumbi, com bicos de mamadeiras nos olhos e nos dedos e, sentada em uma cadeira de rodas, pedia para que a empurrassem.
Valie Export, ainda mais radical, retratava a si mesma numa colagem como a “Pietà” de Michelangelo, figura sacra materna, enquanto, com as pernas abertas, dava à luz uma máquina de lavar roupas.
Já em uma de suas performances mais famosas, andou pelas ruas de Viena com um palco portátil e uma caixa com uma cortina posicionados em seu tórax. Seu parceiro, Peter Weibel, com um microfone, anunciava aos passantes que poderiam enfiar as mãos no miniteatro e apalpar os seios da artista por um minuto gratuitamente.
Com o ato, ela expunha a ideia torpe de consentimento da sociedade —no fim, muitos homens se sentiram confortáveis para participar do experimento, mas as mulheres estranhavam tocar numa desconhecida.
Outras artistas com trabalhos na exposição aderiram a uma vertente mais abstrata. É o caso de Francesca Woodman e sua série de autorretratos em preto e branco, com pitadas de surrealismo, em que ela aparece ora nua, ora interagindo com outros objetos.
Já a americana Emma Amos pintou a si própria vestindo um maiô na beira da piscina —um tipo de lazer, à época, ainda restrito a mulheres brancas de classes mais altas— para questionar quais corpos tinham o direito de relaxar.
Apesar da presença de artistas de várias nacionalidades, Ana Magalhães, curadora de obras do acervo do MAC-USP que foram somadas a “Insurgências”, diz que foram priorizados nomes pouco ou nunca exibidos por aqui, e de artistas austríacas, alemãs, italianas e de países do Leste Europeu que, por serem territórios em conflito constante no século 20, tiveram altos índices de emigração —muitas em direção ao Brasil.
A artista concreta italiana Mirella Bentivoglio teve passagens importantes pelo país, onde se aproximou do poeta Augusto de Campos e do professor Walter Zanini, então diretor do MAC-USP, para quem enviou várias obras de artistas mulheres para compor o acervo.
Ela se tornou uma espécie de promotora cultural ao fazer pontes entre mulheres artistas que davam especial atenção à mistura de imagens e palavras. Em 1978, organizou uma mostra paralela na Bienal de Veneza dedicada à poesia visual, em uma época em que os homens ainda dominavam o circuito mais prestigiado.
Trabalhos como o de Bentivoglio mudaram os rumos da história da arte, diz Magalhães. Sem sua articulação, é possível que muitas artistas não tivessem sido reconhecidas ou descobertas. A atuação coletiva, afirma a curadora, foi uma característica importante da produção dessas artistas, método que contraria o ideal masculino do artista gênio e único.
“Muitas dessas artistas operavam em redes internacionais, em que trocavam informações. Essa união tem a ver com os conflitos em seus países, e como elas precisaram criar estratégias de sobrevivência e resiliência”, diz Magalhães. “Nesse sentido, elas vão contra tudo que era o establishment que culminou no boom da arte moderna dos anos 1950 e 1960, com a mística do ateliê do pintor viril.”
Elas dificilmente tinham espaços de criação próprios e restritos. Os materiais utilizados eram, no geral, baratos e de fácil acesso —o que explica, em parte, a popularidade e recorrência da performance, da colagem e do desenho.
Esses métodos tornavam a criação possível, mas, paradoxalmente, contribuíam para a sua desvalorização. “Essa é uma geração inserida num contexto de restrições à vida pública das mulheres. Suas obras também eram compreendidas na periferia do trabalho dos seus pares homens”, diz Magalhães.
Poucas ganharam destaque no meio cultural enquanto produziam. A maioria foi reconhecida anos depois —uma realidade comum a muitas artistas, como debateu a penúltima Bienal de Veneza, em 2022, em que, pela primeira vez na história da mostra de arte contemporânea mais importante do mundo, o número de artistas mulheres foi majoritário.