Um dos mais conhecidos e celebrados romances do galês Ken Follett, O Buraco da Agulha é fruto de uma curiosidade quase obsessiva que o autor, então com 27 anos, alimentou ao ler uma série de livros sobre espionagem real durante a Segunda Guerra Mundial. Follett passou meses planejando cada detalhe do enredo, pesquisando a Operação Fortitude e o jogo de desinformação que os Aliados criaram para convencer os alemães de que o desembarque do Dia D aconteceria em Calais, quando na verdade miraria a Normandia. Publicado em 1978 com o título original Storm Island e rebatizado, logo depois, para Eye of the Needle, o romance acompanha Henry Faber, espião alemão apelidado de “die Nadel” por conta do punhal que usa para matar com precisão cirúrgica, e sua corrida pela Grã-Bretanha após descobrir que o Primeiro Exército americano, comandado por Patton, era uma fraude cenográfica montada com tanques infláveis, aviões de compensado e tráfego de rádio falso. A dinâmica histórica bem explorada fala a favor do livro: o autor cria seu protagonista com camadas suficientes para que o leitor não consiga odiá-lo por completo, e é nessa ambiguidade moral, nesse espião que vomita após cada assassinato e que protege a St. Paul’s Cathedral (Londres) mandando coordenadas erradas à Luftwaffe, que a grande força do romance se faz perceber. Faber é um vilão em quem se reconhece algo de humano, alguém trabalhado para além da visão maniqueísta/dualista que acaba sustentando, com facilidade, o livro quase inteiro.
Procurando criar algo diferente em um livro de espionagem (que teria, talvez pela primeira vez, uma mulher como heroína), Follett alterna entre três perspectivas: a do espião em fuga, a dos agentes do MI5 que tentam capturá-lo (esses, os melhores blocos do livro), e a do casal David e Lucy, isolados numa ilha fictícia no Mar do Norte escocês, vivendo um casamento destruído por um acidente de carro que custou as pernas de David. Essa tríade dramática tem diferentes momentos de destaque ao longo do livro e foi concebida para afunilar-se e culminar na chegada de Faber à Ilha da Tormenta, onde a perseguição policial é alternada com cenas íntimas, um tantinho de melodrama e cenas que narrativamente lembram um duelo. Follett aprendeu com Frederick Forsyth e Jack Higgins a importância de espalhar pistas complexas e interessantes que recompensem o leitor atento a mais de uma dimensão da obra, e faz isso unindo detalhes históricos com ficção, incluindo aparições de Hitler, Churchill, Canaris e Rommel, cada uma reforçando a percepção de que tudo o que está em jogo, na obra, tem importância colossal. Junto com O Dia do Chacal e A Águia Pousou, O Buraco da Agulha faz parte do grupo de livros de espionagem que, contraditoriamente, constroem seu suspense em torno de um desfecho que a história já resolveu: sabemos que o Dia D foi bem-sucedido, sabemos que o espião não pode vencer, e, ainda assim, somos tomados por uma enorme euforia e curiosidade sobre “o que vai acontecer“, um feito narrativo que poucos autores do gênero alcançaram com tanta naturalidade.
Quando Faber naufraga na ilha e é acolhido por Lucy e David, o livro muda bastante de atmosfera e, para mim, é onde perde a maior parte de sua força (embora eu ache as primeiras páginas da obra meio bagunçadas em relação à sequência de eventos, nada se compara à estranheza da maior parte do que ocorre na ilha). A relação entre os dois traz escolhas de O Amante de Lady Chatterley, e o próprio Follett não esconde a homenagem a D. H. Lawrence: marido paraplégico, esposa solitária, intruso viril. As cenas de sexo, porém, me pareceram escritas de maneira desajeitada, quase tímida (ou tentando escapar de uma certa timidez), como se o autor quisesse ser explícito, mas recuasse no último instante, com passagens que vão do detalhismo a uma candura fora de lugar. O confronto final entre Lucy e Faber, quando a farsa finalmente se desfaz, coloca o livro nos eixos novamente, embora ele não avance mais com tanta força: ela, que passou o livro inteiro diminuída e subordinada, assume o centro da ação ao sabotar a transmissão de rádio que levaria os planos aliados aos nazistas, arriscando a própria vida e se tornando a verdadeira heroína da narrativa. Follett percebeu, talvez antes de muitos contemporâneos, que o obstáculo definitivo num thriller de espionagem podia vir de uma personagem subestimada pela própria trama. Pena que isso leve à morte patética de Faber, que definitivamente merecia algo mais interessante ao sair de cena.
O epílogo segue com a estranheza que surgiu no bloco da ilha, mostrando uma bonita cena familiar, com Lucy e Bloggs já casados e avós, num arremate que tem a cara de exigência editorial somada a um dos modismos de dar encerramento de paz, no futuro, após intensa ação dos personagens em tempos de guerra. Mesmo não sendo muito fã dessa despedida, penso que ela cumpre o propósito de devolver ao leitor a pergunta que atravessa todo o romance: o que a guerra faz com os sentimentos e as lealdades de pessoas comuns? Como essas pessoas são afetadas, em seu microcosmo, por algo muito maior que elas, criado e alimentado por suas nações? O Buraco da Agulha é um exemplo de thriller histórico que, naquilo que verdadeiramente importa, é muito bom. Fiquei impressionado como o autor conseguiu construir cenas no III Reich e no MI6 com detalhes e estrutura de diálogos que demonstram estudo e noção de ritmo aplaudíveis, algo que podemos ver na trajetória do protagonista se cruzando com a de muita gente ao longo dos capítulos. É fácil perceber por que a obra se tornou uma das referências para o gênero e foi um sucesso estrondoso de vendas. Isso impeliu o próprio autor a revisitar o mesmo período histórico, no futuro, explorando esquinas diferentes de um tipo de ambientação que ele registrou tão bem em 1978, e que, por isso mesmo, lhe deu tanto reconhecimento.
O Buraco da Agulha (Eye of the Needle) — Reino Unido, 1978
Autor: Ken Follett
Editora original: Macdonald & Jane’s
Edição lida para esta crítica: Editora Arqueiro (30 de agosto de 2018)
Tradução: Alves Calado
336 páginas