O ciclo de violência contra meninas e mulheres nunca foi uma novidade em Gilead. Esta sociedade, na verdade, se construiu e só se manteve em pé a partir do massacre das identidades, dos abusos dos corpos e da inutilização das vontades das mulheres, de modo que era de se esperar — como já havia sido sugerido em algum ponto da tríade de estreia da série — que o dentista local abusava de Agnes. E aqui em Chá Verde é claramente indicado que ele a estuprou, enquanto ela estava sedada. É um problema e tanto, que pode fazer com que muitas pessoas sejam afetadas e algo na dinâmica desse mundinho do núcleo central de Os Testamentos se altere. Normalmente, quando existem assuntos muito fortes em jogo, os roteiros tendem a não dar força demasiada para “horrores comuns“, e talvez este seja o caso, mas, aí, só o tempo dirá. O fato é que o estupro de Agnes não deverá passar batido, pelo que depreendo das sugestões do texto. O óbvio seria a gravidez e, então, o escândalo, que poderia revelar o estuprador e, talvez, abalar a relação da vítima com sua melhor amiga. Ou, por tabela, sobrar também para Daisy e Garth, já que eles estavam acompanhando a jovem ao dentista.
Muito similar a Dentes Perfeitos em termos de construção narrativa, Chá Verde mostra mais um dia e mais um evento na vida das meninas poderosas de Gilead. Como acompanhamos um grupo de garotas que já estão “disponíveis para casar” é evidente que as engrenagens dos acordos nupciais apareceriam no show. Há muita delicadeza aqui, e eu realmente gosto da direção de Quyen Tran, que adota um trabalho de câmera mais à distância, como se fosse um observador tímido, mas curioso. Os closes são econômicos e bem rápidos, trazendo uma frieza calculada para o capítulo e aceitando a consequência imediata disto, que é uma aproximação lenta e apenas parcial com o espectador. Em alguns momentos, isso é deixado de lado, mas não pelo trabalho de câmera e sim pela construção do suspense, como vemos na cena em que Daisy entra no escritório do Comandante Mackenzie ou na sequência final, quando pega o rádio e vai até o banheiro. A propósito disso, acho muito “na nossa cara” a produção ter colocado essa isca. Penso que é questão de tempo até o dispositivo ser descoberto, e espero que não seja usado para gerar suspense constante, porque aí perderá força e deixará ainda mais claro o seu uso meio estúpido (pensem aí: se vocês fossem de um grupo de resistência política e conseguissem colocar um infiltrado num lugar como Gilead, permitiriam que sua agente mais descoberta e, para todos os efeitos, indefesa, tivesse um rádio?).
Citar as Colônias com um misto de medo e nojo mostra um lado intrigante do pensamento que circula internamente em Gilead. É curioso como Os Testamentos tem aumentado o número de informações que não tínhamos de forma tão direta em O Conto da Aia, ou, pelo menos, mostra as questões sob um ponto de vista mais imaturo (e com isso, refiro-me à idade das personagens centrais), ainda em processo de construção sobre o que é a vida num lugar desses. O bom dessa perspectiva é que o amadurecimento pode, a depender dos impulsos externos, personalidade da pessoa e condições específicas, fazer com que se quebre a ilusão vendida sobre aquela sociedade. Essas garotas são de uma geração onde Gilead está mais frágil, em vários sentidos, e isso também pode ser um vetor de reorientação ideológica — algo até meio óbvio, na verdade, se reconhecermos qual é o verdadeiro objetivo de uma das principais personagens do show.
Mesmo sem muita força dramatúrgica (os diálogos aqui são bem simples e estão começando a me preocupar um pouco), a série parece estar criando espaço para situações de peso, e é a partir delas que deve crescer em relevância. A tentativa revolucionária vinda com a colocação de agentes do grupo Mayday em Gilead é um bom indício de que o programa caminha para eventos bem tensos. Por enquanto, as coisas correm muito bem, mas não de forma grandiosa. Não que toda série ou que todo episódio precise ser assim, só para deixar claro. As coisas são como são. E, por enquanto, Os Testamentos tem se provado uma boa série. E, enquanto estiver claramente buscando avançar em qualidade estética e narrativa, será bom acompanhar.
Os Testamentos: Das Filhas de Gilead – 1X04: Chá Verde (The Testaments: Green Tea) — EUA, 15 de abril de 2026
Direção: Quyen Tran
Roteiro: Elise Brown
Elenco: Chase Infiniti, Lucy Halliday, Mabel Li, Brad Alexander, Isolde Ardies, Rowan Blanchard, Mattea Conforti, Zarrin Darnell-Martin, Eva Foote, Kira Guloien, Shechinah Mpumlwana, Birva Pandya, Amy Seimetz, Ann Dowd, Nate Corddry, Randal Edwards, Kate Hewlett, Heather Kosik, Ellen Olivia, Hattie Kragten, Christina Cox, Monica Rodriguez Knox, Pearl Sun, Dwight Ireland
Duração: 42 minutos