Falar de comédia romântica parece algo nichado hoje, afinal, como tornar o subgênero chamativo numa que era marcada por adaptações eróticas baseadas em fanfics? A última vez que tivemos uma aposta nos moldes dos clichês americanos foi com Todos Menos Você, uma espécie de sátira autoconsciente aos tropos do subgênero. De lá para cá, tudo indica que há uma tendência alternativa eclodindo. Pegamos por exemplo Amores Materialistas com a promessa de uma rom-com sobre um triângulo amoroso trazer, na verdade, um olhar existencialista e intimista ao tema, enquanto que Kristoffer Borgli faz de O Drama um romance tragicamente desconfortável. O que ambos têm em comum é de se vender como uma comédia romântica à moda antiga: um filme com astros do momento numa premissa que embala a fórmula.
Por um momento, o cineasta norueguês imprime elementos de uma rom-com nos primeiros vinte e cinco minutos do filme, principalmente, na sequência a qual Charlie (Robert Pattinson) escreve o discurso de casamento. Borgli dilui muito do que veríamos acontecer se The Drama, fosse, de fato, o mergulho no romance clássico que parece: como ele conheceu Emma (Zendaya), o primeiro encontro, e como se deu paixão até chegar ao casamento. São sequências divertidas que a edição — os cortes rápidos, elipses — do diretor ao lado de Joshua Raymond Lee definem o tom da narrativa, mas o filme não é sobre isso. Contudo, Borgli gosta de manter a ideia de que O Drama é a comédia que aparenta — e o público acredita nisso, sobretudo pela química que Pattinson e Zendaya exalam. Por um tempo, o clima leve e descontraído distrai a audiência, a ponto de disfarçar o humor ácido.
Borgli pega a ideia de que estamos acompanhando a história de um relacionamento bem estruturado às vésperas do casamento e traz uma revelação que contraria a fórmula que acostumamos ver na comédia romântica sobre o amor perfeito que tudo supera — principalmente por ser inesperada e pensar como será a partir dali. O grande ponto de virada, a revelação, é direcionada para o julgamento do público que ver o clássico romance contemporâneo desmoronar com a inserção de um tema sensível. Porém, o propósito não é discutir a sua cultura — principalmente num contexto americano — trazer resoluções ou lições morais, e sim pôr em cheque uma dúvida para o casal: ficaria com uma pessoa depois de descobrir a pior coisa que ela já fez? Até onde a conhece? O jogo entre casal e amigos desencadeia uma série de eventos desconfortáveis, mas diferente dos seus dois primeiros filmes Borgli não quer falar sobre o status da imagem, de como alguém é visto e sim as consequências, da dúvida que um fato gera.
Se antes os cortes rápidos da edição favoreciam o tom leve, depois passou a ser ainda mais abrupta ao mesclar episódios do passado com pensamentos futuros que flertam com um surrealismo, são nesses pontos que vemos a relação — aparentemente — perfeita colapsar. Borgli desconstrói a comédia do nosso imaginário e a transforma numa comédia de erros ácida e tensa, incomoda e instigante, mas ao mesmo tempo divertida pelo o que o tema provoca. Há uma sátira disfarçada que se camufla na naturalidade que o cineasta busca em manter desde o início, e com essa mesma sacada que ele cria situações para extrair o máximo de constrangimento e desconforto a fim de extrair o limite do que ela pode levar. É uma escolha que leva a ideia de não tecer julgamentos e sim deixar para reflexão e observação do público para uma dinâmica de provocação que ri do que tenta fazer — a exemplo das cenas que “brincam” de encenar uma comédia romântica depois de pesar o clima.
Depois de tanta intensidade, falta para O Drama atingir o efeito catártico que busca imprimir na audiência, mas não há dúvidas de que é uma experiência divertida por ser desafiadora ao fazer da comédia romântica uma tragicomédia, densa e por vezes até melancólica e psicológica sem deixar de utilizar do humor ácido para provocar diferentes sensações. O romance e açucarado se transforma no drama que nomeia o longa graças a sucessão de eventos que precedem o esperado casamento. Da paranóia da insegurança à busca por razão, Borgli se recusa a oferecer saídas fáceis, mesmo quando não quer deixar de parecer uma rom-com, enquanto entrega uma sátira à história que acreditávamos acompanhar ainda nos votos do casamento.
O Drama (The Drama – EUA, 2026)
Direção: Kristoffer Borgli
Roteiro: Kristoffer Borgli
Elenco: Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Mamoudou Athie, Hailey Gates, Sydney Lemmon, Hannah Gross, Anna Baryshnikov, Jordyn Curet, Michael Abbott Jr., Zoë Winters, Dee Nelson, Damon Gupton, Ken Cheeseman, Doria Bramante
Duração: 105 min