Análise detalhada do filme O Bebê (1973): influências e legado cinematográfico

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Sei que todas as décadas do Cinema merecem mergulhos profundos por quem gosta de filmes, mas cada vez mais eu percebo que navegar pela produção americana independente da década de 70 é como entrar em uma nave desgovernada, romper a barreira do multiverso e chegar a universo paralelo em que as regras são defenestradas sem cerimônia e, no lugar delas, encontramos um grau de anarquia tão grande que tudo pode e tudo vale, com resultados que surpreendem tanto positiva quanto negativamente e que trazem à tona uma variedade antitética de sentimentos que vão se revezando em velocidade vertiginosa. Em O Bebê, por exemplo, é possível rir de diversas cenas, mas imediatamente sentir vergonha por ter rido; é possível ficar enojado pelas situações, mas gostar da sensação; é até mesmo “normal” sequer conseguir enquadrar o filme mentalmente em algum gênero, mesmo que ele seja comumente classificado como horror, e achar isso perfeitamente razoável.

Não estou com isso querendo dizer que O Bebê é um filme desafiador, complexo ou algo nessa linha, pois ele definitivamente não é nada disso. No entanto, a obra dirigida por Ted Post, talvez mais conhecido por na mesma década ter comandado dois “segundos filmes de franquias famosas”, De Volta ao Planeta dos Macacos e Magnum 44, é curiosa a ponto de ser bizarra e envolvente a ponto de ser tensa, com uma reviravolta final que talvez seja mais doentia do que inesperada e que provavelmente vale o preço do ingresso por si só. Mas, claro, é um filme B do começo dos anos 70, a era dos exploitation movies, pelo que é necessário encará-lo com a mente no tempo certo, deixando as sensibilidades modernas de lado pelos 84 minutos da projeção, caso contrário o espectador só vai encontrar barbaridades.

A história coloca Ann Gentry (Anjanette Comer), uma assistente social que passou por um trauma recente relacionado com seu marido, envolvendo-se com o filho mais novo da família Wadsworth, um homem de 20 e poucos anos que, porém, parece ter sérios problemas de desenvolvimento, permanecendo com a idade mental e comportamental de um bebê e cujo nome jamais é revelando, sendo chamado somente de Bebê (o personagem é vivido por David Mooney, creditado como David Manzy) . Ele só balbucia, dorme em um berço, toma mamadeira, chora como uma criancinha pequena, fica maravilhado com brinquedos, mas também com as curvas de Ann e, mais ainda, de suas irmãs voluptuosas Germaine (Marianna Hill) e Alba (Suzanne Zenor), sempre sob a supervisão cúmplice da matriarca, a Sra. Wadsworth (Ruth Roman). Ann, de um lado percebe que o bebê talvez seja mais desenvolvido do que parece e, por outro, pouco faz na prática para mudar o status quo, mesmo que demonstre um interesse quase obsessivo por ele.

O roteiro de Abe Polsky, cuja experiência com longas se limitou a O Bebê e a dois filmes anteriores repletos de violência, foi escrito para chocar, claro. Não basta o choque da existência do próprio Bebê e da forma como o ator vive alguém com potenciais problemas mentais quase como que zombando de quem tem realmente problemas mentais, como a família é doentia em todos os níveis, com uma das irmãs efetivamente transando com o irmão e com Ann chegando a ser assediada por ele, além da descoberta dos demais abusos que Bebê sofre e que Ann vai aos poucos descobrindo. Se alguém me perguntar qual é o objetivo da história para além de levar à mencionada reviravolta final que explica a obsessão de Ann com o Bebê, talvez eu pudesse dizer que é comentar a forma como pessoas com distúrbios mentais são tratadas, mas essa minha resposta seria ingênua, quase que forçando uma moral em algo que, sendo bem sincero, não tem moral alguma para além da bizarrice incômoda inata que decorre da premissa e que perpassa toda a narrativa.

No entanto, é relevante lembrar que Ted Post não é um diretor ruim. É bem verdade que ele não tem estilo marcante ou pegada autoral, estando mais para um profissional que faz o que precisa ser feito, como tantos por aí. No entanto, existem os que fazem o que precisa ser feito de qualquer jeito e tem aqueles que sabem o que estão fazendo e que mostram comando da narrativa. Post tem perfeita consciência do material que tem em mãos e ele sabe o que precisa fazer para o filme funcionar. Isso fica evidente pela forma como ele dirige Anjanette Comer, mantendo uma distância equilibrada da protagonista, deixando a atriz – que não é lá grandes coisas em termos dramáticos, claro – confortável no papel e mantendo uma certa ambiguidade. Por seu turno, as mulheres da família Wadsworth são visualmente construídas como estereótipos femininos, seja a mãe controladora e manipuladora, ou as irmãs com carga sexual presente constantemente. E o Bebê, bem, o Bebê é o suprassumo do incômodo que faz rir e que imediatamente nos deixa culpados por termos rido. E a condução de Post das sequências finais, que inclui o twist, claro, é puro sumo de horror trash que precisa ser visto para ser apreciado (ou odiado, depende).

O Bebê é, sem dúvida alguma, um horror. Resta apenas o espectador decididr se é um filme de horror ou um horror sem salvação que independe de gênero. Na verdade, o único gênero que esse filme sem dúvida tem é o gênero da década em que foi feito. O DNA setentista independente está em cada fotograma da obra e a experiência de assisti-lo é perturbadora, hilária, constrangedora, inacreditável, revoltante e até mesmo sensual. Definitivamente algo que, uma vez assistido, jamais será esquecido.

O Bebê (The Baby – EUA, 1973)
Direção: Ted Post
Roteiro: Abe Polsky
Elenco: Anjanette Comer, Ruth Roman, Marianna Hill, Suzanne Zenor, Tod Andrews, Michael Pataki, Beatrice Manley Blau, Erin O’Reilly, Don Mallon, David Mooney (David Manzy)
Duração: 84 min.





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