American Ninja ou, como foi batizado em diversos países, incluindo Brasil, Argentina e Reino Unido, Guerreiro Americano, é mais uma trasheira produzida pela Cannon Films dos primos israelense-americanos Menahem Golan e Yoram Globus, que marcaram época nos anos 80 para o mal ou para o bem, para surfar na onda da “moda ninja”, spin-off da moda setentista das artes marciais nos EUA, que eles mesmo começaram com Ninja, a Máquina Assassina, protagonizado por ninguém menos do que o italiano Franco Nero, que, 15 anos antes, se notabilizara por seu Django. Um sucesso financeiro absoluto, o filme estrelado por talvez o pior astro da época, o inexpressivo a ponto de ser hilário Michael Dudikoff, impressionantemente ganhou quatro continuações – nem sempre com Dudikoff e nem sempre continuação propriamente dita, vale dizer – em um intervalo de menos de 10 anos, definitivamente deixando sua marca na mente de quem, como eu, viveu essa época povoada de filmes dessa categoria.
Com um roteiro que parece uma costura mal feita de uma série de clichês básicos, o filme coloca Dudikoff como o desmemoriado e silencioso recruta Joe Armstrong que, não demora, impede que um destacamento de ninjas roube um comboio militar, salvando a vida da “mocinha em perigo” Patricia Hickock (Judie Aronson), que é a filha do Coronel William Hickock (Guich Koock), líder do destacamento do exército que está no bolso do traficante Victor Ortega (Don Stewart), não sem querer o patrocinador do pequeno exército de ninjas. Aos trancos e barrancos, não só a memória de Joe começa convenientemente retornar, como ele acaba fazendo amizade com o cabo Curtis Jackson (Steve James) e os dois, claro, partem para desbaratar toda a vilania ao redor com muitas lutas e variadas armas brancas.
O maior problema do filme, além do roteiro mais esburacado do que queijo suíço, é sem dúvida Dudikoff. Afinal, ele não é só um péssimo ator, se é que é justo chamá-lo de ator, como suas habilidades marciais são completamente nulas. Uma coisa é você ter atores ruins que lutam bem como Bruce Lee e Chuck Norris (que foi a escolha original para viver o protagonista de Guerreiro Americano, mas, diz a lenda, se recusou por não querer esconder o rosto atrás de uma máscara), outra bem diferente é você não ter nem uma coisa, nem outra e insistir no uso do suposto ator sem investir em dublês convincentes. É a fórmula para a tragédia audiovisual, a não ser, claro, que o espectador aceite o filme como uma comédia pastelão, caso em que ele talvez, com algum esforço, funcione aqui e ali. Afinal, mesmo que algum leitor tenha memória afetiva com esse filme como eu achava que tinha, a infeliz progressão narrativa que faz pouco ou nenhum sentido somada a um Dudikoff completamente artificial naquilo que deveria ser o coração da produção é mais do que se pode aturar mesmo com toda a boa vontade do mundo.
Mas, no lado pastelão da coisa toda, é hilário notar como a expressão “ninja americano” precisa ser citada várias vezes ao longo da duração da fita, de preferência acompanhada de uma expressão de espanto, como os ninjas sempre são a força de proteção preferida dos vilões dos filmes, mesmo considerando que eles usam facas e espadas para lutar contra gente armada com armas de fogo e como eles, com exceção do “chefe ninja”, são derrotados facilmente, mesmo por quem não tem nenhum conhecimento de artes marciais e o tal “chefe ninja” é derrotado com um pouco mais de esforço, mas não muito mais do que o esforço necessário para, por exemplo, fazer 10 polichinelos. Além disso, escancarando todas as limitações da produção que sequer tinha um time decente de coreógrafos, nenhum golpe com instrumentos cortantes parece forte o suficiente para cortar mais do que manteiga que tenha ficado fora da geladeira por 24 horas em clima tropical, com o bônus das obrigatórias cenas (são várias!) de ninjas “caindo do céu” na frente dos mocinhos. E isso sem contar com o hilário fato de que os ninjas, originalmente guerreiros que usavam a furtividade como arma, precisam sempre estar fardados com seus discretos quimonos, de preferência na cor preta, em plena luz do dia, quando eles são imediatamente visíveis assim e o mocinho, o tal “Ninja Americano” do título original, só veste o traje de ninja por não mais do que 10 minutos no final do filme.
Guerreiro Americano talvez seja, para alguns, uma obra que cai na tão inflada categoria de “filme tão ruim que é bom” e eu até consigo ver como isso é uma conclusão justa em que eu encaixo, por exemplo, o citado Ninja, a Máquina Assassina. No entanto, para mim, revendo o filme já como burro velho depois de conferi-lo provavelmente dezenas de vezes como jovem desmiolado, não tenho nenhum problema em dizer que a produção é tão completamente desgovernada, com um ator principal tão ruim em tudo que tenta fazer, que o que ela merece mesmo é ser esquecida pelas brumas do tempo.
Guerreiro Americano (American Ninja – EUA, 1985)
Direção: Sam Firstenberg
Roteiro: Paul De Mielche (baseado em história de Avi Kleinberger e Gideon Amir)
Elenco: Michael Dudikoff, Steve James, Judie Aronson, Guich Koock, John Fujioka, Don Stewart, John LaMotta, Tadashi Yamashita, Phil Brock, Richard Norton
Duração: 95 min.