Brasil reconhece importância da população negra em momentos de risco de perda cultural e social – 22/04/2026 – Sons da Perifa

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Pouco antes de subir ao palco do Espaço Unimed, no dia 10 de abril, para encerrar a turnê que celebrou seus 50 anos de vida, encontrei Criolo nos bastidores. Emocionado, com a voz embargada, ele me falou do Grajaú —do peso e da força de tudo o que viveu ali, “das coisas boas às ruins”, da infância e do valor de sua mãe em sua trajetória.

Foi naquele pedaço do extremo sul de São Paulo que boa parte de quem ele é ganhou forma. E talvez por isso aquele show tenha provocado mais do que emoção: ele empurrou uma pergunta incômoda sobre a longevidade dos nossos ídolos, especialmente os negros.

Porque há algo de muito bonito quando um artista preto e periférico é celebrado em vida como acontecimento histórico. Mas há algo de estranho também. Nos últimos anos, a indústria cultural aprendeu a fazer festa para trajetórias negras quando elas já chegam embaladas como marco, despedida ou retrospectiva. Como se a grandeza, sozinha, ainda não bastasse. Como se fosse preciso o selo do tempo, do cansaço ou do adeus para que o país finalmente entendesse o tamanho do que sempre esteve ali.

Gilberto Gil com “Tempo Rei” anunciada como última turnê. Martinho da Vila transformando “Pai e Filha”, ao lado de Mart’nália, em sua última grande travessia. Alcione convertendo 50 anos de carreira em celebração em festivais. Milton Nascimento já tendo feito sua despedida dos palcos.

São movimentos bonitos, justos e merecidos. Mas, quando postos lado a lado, também dizem que o Brasil até sabe consagrar nomes pretos, só ainda não aprendeu a sustentá-los como centro enquanto seguem vivos, produzindo, pensando e atravessando o presente.

Milton talvez seja o exemplo mais duro disso. Sua despedida não foi só o fim de uma turnê. Foi também a sensação de que o Brasil estava entendendo tarde demais o tamanho do que teve diante de si por décadas. Com artistas pretos, a consagração muitas vezes chega quando o corpo já fala em cansaço, quando a agenda já fala em despedida, quando a memória começa a disputar espaço com a presença.

Só que existe uma camada ainda mais funda nessa conversa: nem todo mundo tem última turnê de despedida. É lindo ver Alcione, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão transformando trajetória em celebração pop. Mas como o Brasil faz o mesmo com figuras como Cida Bento, Sueli Carneiro e Conceição Evaristo?

Não falta obra e nem impacto. Falta ritual público de consagração em vida e entender que grandeza preta não mora só no palco, mas também no pensamento que nomeia o racismo, reorganiza a memória preta e desmonta as mentiras elegantes do Brasil.

E, na periferia, essa lógica é ainda mais cruel, porque ali o tempo não costuma chegar em forma de homenagem. Em 2023, pessoas negras no Brasil enfrentaram um risco 2,7 vezes maior de serem vítimas de homicídio do que pessoas não negras. A maioria é de homens e muitos são pais. No fim viram lembrança na mente de mães, filhos e companheiras. Talvez por isso a música preta e periférica funcione como um arquivo de emergência, para guardar nomes, afetos, territórios e avisos.

Foi isso que o Pagode da 27, ao subir ao palco com Criolo, também levou consigo: a memória de quem ficou pelo caminho e a lembrança de que ainda é preciso seguir. A apresentação do grupo serviu para reafirmar que memória, na periferia, nunca foi ornamento, mas ferramenta de sobrevivência. E talvez a tarefa agora seja justamente inventar formas de consagração em vida que não dependam da despedida para parecer legítimas, nem do luto para produzir grandeza.

No fim, a questão talvez seja menos sobre homenagem e mais sobre demora. O Brasil até aprende a celebrar seus nomes pretos, mas quase sempre quando o tempo já virou notícia, marco ou adeus. É bonito ver nossos gigantes chegarem longe. O problema é que, por aqui, a grandeza ainda precisa envelhecer para ganhar o tamanho que sempre teve.


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