Impacto do Agro na Desagregação da Unidade Política Construída por Vargas

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Nos anos 90 era comum se falar no fim da “Era Vargas”. Diante das transformações neoliberais capitaneadas por Collor e FHC, o legado intervencionista, industrializante e nacionalizante de Vargas foi sendo corroído pelas privatizações e pela inserção do Brasil na ordem liberal da globalização. No entanto, alguns legados varguistas sobreviveram, e só hoje em dia estão sendo desmontados, como é o caso do tradicional programa radiofônico “A Voz do Brasil”.

Neste mês, o Ministério das Comunicações divulgou o calendário de 2026 para a flexibilização do “A Voz do Brasil”, permitindo que rádios priorizem coberturas locais. Com a medida, as emissoras podem dispensar ou adiar a transmissão do programa para cobrir “eventos de grande relevância regional”, como aniversários de cidades, festas religiosas e feiras agropecuárias.

Criado em 22 de julho de 1935, no governo de Getúlio Vargas, o então “Programa Nacional” foi o embrião da atração radiofônica mais antiga ainda em exibição no país. Em 1938, a transmissão tornou-se obrigatória no horário das 19h às 20h, sob o nome de “A Hora do Brasil”. Em 1962 o programa adotou sua denominação atual, “A Voz do Brasil”.

Quando Vargas tornou obrigatório o seu programa, ironicamente chamado pelo povo debochado de “o fala sozinho”, o objetivo estava inserido em seu plano desenvolvimentista e centralizador. Em resposta ao contexto da República anterior, que batizou de “velha”, Vargas defendia a ideia de um governo forte e industrializante. Ditatorial a partir de 1937, o Estado Novo de Vargas tinha um projeto de país que era crítico não apenas à democracia, mas também ao federalismo que julgava desorganizado.

Foi por isso que a Constituição ditatorial de 1937 determinou o fim dos símbolos que não fossem aqueles que representassem a nação unida sob Vargas. Para mostrar que não estava brincando, o ditador realizou um ato simbólico. Em 27 de novembro daquele ano aconteceu a queima das bandeiras dos Estados brasileiros em plena Praia do Russel, no centro da então capital federal, o Rio de Janeiro.

No centro da celebração, havia uma pira onde as bandeiras dos 21 estados da época foram depositadas e queimadas ao som do Hino Nacional. O evento foi cercado de pompa militar, com desfiles e música, para dar um ar de festa cívica à destruição dos símbolos regionais.

O então ministro da Justiça de Vargas, Francisco Campos, responsável pela promulgação da Constituição do Estado Novo, discursou: “Os brasileiros se reuniram em torno do Brasil e decretaram desta vez com determinação não consentir que a discórdia volte novamente a dividi-lo, que o Brasil é uma só pátria e que não há lugar para outro pensamento do Brasil nem espaço e devoção para outra bandeira que não seja esta”.

A criação do programa “A Voz do Brasil” se inseriu neste contexto de unificar o Brasil para além das fraturas regionais e locais, superando o federalismo desengonçado da República Velha. O projeto integrador passava pela industrialização a partir de um Estado forte e intervencionista. O papel de “A Voz do Brasil” era transmitir às diversas regiões do país seus papéis neste projeto desenvolvimentista. Agora, o programa de mais de 90 anos encontrou seu golpe mais mortal.

O “A Voz do Brasil” já tinha sido flexibilizado em 4 de abril de 2018, quando o então presidente Michel Temer assinou a lei n.º 13.644. A transmissão do noticiário, antes obrigatória às 19h, tornou-se flexível e passível de ser apresentado em qualquer horário entre 19h e 22h por emissoras comerciais. Diante da flexibilização atual, o que vemos é a vitória dos poderes regionais em se apoderar da “Hora do Brasil”.

Em época de internet e excesso de informação, é de se perguntar até que ponto é justo manter um programa estatal de comunicação. Se até na época de Vargas o programa era chamado de “o fala sozinho”, que dirá hoje em dia, inchados que estamos de toda sorte de mídias.

O fim parcial da programação nacional de “A Voz do Brasil” representa a força de um país rural e agrário, que toma os poderes estaduais e consegue se impor frente aos discursos centralizadores, questionando qualquer ideia de projeto nacional. Vargas se revira no túmulo.


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