Análise do episódio 5×04 de The Boys destaca conflito e poder em Rei do Inferno

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Quando Rei do Inferno acabou, senti-me em uma encruzilhada. Por um lado, é um mais do que sólido episódio que foca em desenvolvimento de personagens e ótimas atuações e, por outro, é um filler que está no lugar e tempo errados e que, ainda por cima, serve como mais uma descarado episódio introdutório do vindouro prelúdio spin-off  Vought Rising. E olha que eu adoro fillers bons como esse sem dúvida é, mas é difícil – e injusto – avaliar um episódio fora de seu contexto e de seu momento, especialmente em séries de narrativa única e, ainda por cima, próximas de chegar ao seu final, final esse que muito claramente tem sido empurrado com a barriga por Eric Kripke que, pelo visto, escolheu lidar com as consequências reais de sua história somente bem no finalzinho.

Vejam, por exemplo, a história de Annie tentando tirar satisfações com seu pai que a abandonara há mais de 20 anos. É, sob o ponto de vista dramático, algo muito bom de se ver e raro em uma série normalmente afeita à violência satírica e ao puro deboche. Tim Daly, como Rick January, encontrou seu tom de imediato e toda as sequências dentro de sua casa, em que ele explica o porquê de seu indesculpável abandono da filha e sua postura silente em relação aos eventos que acontecem ao seu redor, funcionam muito bem. No entanto, não aqui, não no episódio que marca a metade da última temporada de uma série que vem enrolando demais e andando de lado para evitar encarar suas principais questões de frente, de peito aberto. Tivemos a quarta temporada inteira usando essa estratégia ao ponto de exaustão e o início da derradeira temporada, apesar de bem melhor e mais consistente, continua basicamente da mesma maneira. Portanto, toda essa linha narrativa de confrontamento e reconciliação de Annie com seu pai foi a história certa no momento errado.

No lado da procura do V1 pelos rapazes e pela dupla pai-e-filho formada por Capitão Pátria e Soldier Boy, posso afirmar, sem medo de errar, que havia uma excelente história ali, mas que ela foi sabotada a cada passo pela loucura narrativa que é introduzir uma vindoura série em pleno desfecho de outra, que deveria ser a principal e, portanto, a mais importante. O conceito de filme de horror, com uma floresta repleta de corpos de humanos e animais servindo de prato de entrada para um centro de pesquisas abandonado há décadas tomado por uma estranha vegetação que parece soltar esporos de raiva e rancor é um dos melhores de toda a série até agora. A execução, na base de espaço confinado e convenientemente mantendo os dois grupos separados – a conveniência pode parecer inverossímil sob o ponto de vista prático, mas é perfeita narrativamente – é outro ponto alto, com a gradativa e já comum animosidade entre os rapazes ganhando corpo até explodir em combates corporais muito interessantes, com apenas Francês mantendo-se lúcido em razão de seu uso passado de drogas pesadas que o tornou imune aos efeitos do que, mais para a frente, descobrimos ser obra de Quinn (Kris Hagen), um super das antigas e parceiro de Soldier Boy que vemos, aqui, como um papel de parede na forma do Monstro do Pântano.

Ver o Capitão Pátria, depois de enlouquecidamente declarar-se o Messias, sofrendo fisicamente na câmera de torturas nuclear em que seu pai o prende é um prazer que mostra que há outras maneiras de se conter um ser tão poderoso assim, mesmo que apenas por um tempo. Infelizmente, porém, esse poderoso momento é mal aproveitado. No lugar de realmente mergulhar nos conflitos entre pai e filho e, depois, entre Billy e Capitão Pátria, o roteiro prefere trafegar pelo caminho mais fácil e simplista, que é simplesmente o de tirar o vilão da jogada por um tempo de maneira que o restante do episódio pudesse acontecer como acontece. E o que mais irrita é que as duas coisas poderiam ter sido feitas simultaneamente, sem que sacrifícios fossem necessários, pois muito do episódio é focado nos momentos que antecedem a chegada de todos em Fort Harmony e também na linha narrativa de Annie que, como já disse, é o típico caso de coisa certa na hora errada.

E, claro, temos o backdoor pilot de Vought Rising, algo que já havia ficado claro no episódio anterior, mas que ficou incomodamente evidente aqui. Nada contra o uso desse artifício, mas não em uma temporada que não poderia ter fillers como esse, por melhor que ele seja. Tudo acabou jogado. Quem diabos é Quinn e porque o Soldier Boy ficou tristonho depois de matá-lo? Quem diabos é Bombsight, que havia sido mencionado – e apenas mencionado – uma vez antes e que, de repente, é o ladrão de V1? Há apenas uma resposta para essas perguntas e ela é a tal vindoura série da franquia, o que torna essas menções, aqui, completamente sem contexto e apenas e tão somente uma estratégia de alongar uma história que, muito sinceramente, já deveria ter acabado. A psicopatia do Capitão Pátria já deu o que tinha que dar e seu “complexo de Deus” não é mais impactante nem dentro da série e nem em um mundo real em que coisas muito mais surreais acontecem diariamente. A inação dos rapazes já cansou, assim como as quase mortes, como explorei na crítica anterior. E esse negócio de personagens irem embora como foi Annie antes e Ryan agora, além da recusa de Kripke em trazer o pessoal do Gen V para a série principal é frustrante.

Rei do Inferno, portanto, era um ótimo episódio – potencialmente até mesmo dois ótimos episódios se as histórias fossem separadas – em sua concepção e até mesmo em boa parte de sua execução, mas ele definitivamente foi inserido no momento errado, já que The Boys chegou a um ponto de desgaste causado pela covardia em seguir em frente e encerrar a história sem mais enrolações, sem dramas internos e, principalmente, sem publicidade de uma nova série da franquia. Nessa encruzilhada decisória entre ver algo que poderia ser ótimo sendo usado no pior momento possível, acabei decidindo-me pela exatamente linha mediana, pois estou me sentindo bonzinho hoje e porque ver o Capitão Pátria derreter um pouco no banho de urânio de foi sem dúvida prazeroso.

The Boys – 5X04: Rei do Inferno (The Boys – 5X04: King of Hell – EUA, 22 de abril de 2026)
Showrunner: Eric Kripke
Direção: Karen Gaviola
Roteiro: Geoff Aull
Elenco: Karl Urban, Jack Quaid, Antony Starr, Erin Moriarty, Laz Alonso, Chace Crawford, Tomer Capon, Karen Fukuhara, Nathan Mitchell, Colby Minifie, Susan Heyward, Valorie Curry, Cameron Crovetti, Jensen Ackles, Omid Abtahi, Deborah Drakeford, Callum Shoniker, Tim Daly
Duração: 65 min.





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