Um conceito inovador com potencial desperdiçado
“Ornamento”, romance do colombiano Juan Cárdenas, chega ao Brasil após quase uma década desde sua publicação original em 2015. A obra parte de uma premissa fascinante: a criação de uma substância psicoativa extraída de uma flor que induz um êxtase coletivo exclusivo às mulheres, já que a testosterona presente nos homens neutraliza seu efeito. A ideia de uma droga que rompe com barreiras biológicas para explorar dimensões inéditas do prazer feminino é instigante e repleta de possibilidades narrativas e sociais.
Narrador cínico e distante
Apesar da premissa promissora, a narrativa se apoia em um médico que conduz experimentos com quatro voluntárias e registra seus resultados em um diário seco e irônico. Esta escolha reflete um tom cético e distanciado que limita a profundidade emocional do texto. O narrador não se revela simpático, e seu cinismo constante dificulta que o leitor se envolva plenamente com a trama ou compreenda as nuances das transformações provocadas pela droga.
Paciente número 4: o enigma central
O principal motor da narrativa é a curiosidade em torno da paciente número 4, figura marcada por mistérios e por uma sensibilidade especial que a distingue das demais voluntárias. Enquanto as outras adormecem sob efeito da substância, ela se abre em relatos oníricos aprofundados, revelando memórias e fabulações complexas. Sua inteligência e discurso chocam o preconceito elitista do médico, e sua presença altera a dinâmica do narrador, desencadeando tensões pessoais e profissionais.
Triângulo amoroso e tensões artísticas
No desenrolar da história, a paciente número 4 rompe o ambiente clínico para se envolver num triângulo amoroso com o médico e sua esposa, uma artista plástica dedicada a uma estética que valoriza a “poética da inação” e o minimalismo. Este conflito espelha o debate interno do narrador sobre o que é “ornamento”: o excesso de beleza e afetamento que ele despreza e que sua esposa cultua, ou o encantamento espontâneo que a droga oferece às coisas simples da vida.
Ironia social e crítica sutil
O romance transita numa crítica social embutida, comparando o médico e seus experimentos científicos à antiga figura dos traficantes dos anos 1980, sugerindo que a nova droga é apenas uma versão moderna e mais “limpa” do comércio ilícito. A ironia surge do contraste entre o mercado que legitima a droga e a utopia de uma arte feminista e igualitária que ela supostamente representaria. Esse aspecto paradoxal denuncia a esterilidade de soluções liberais diante de desafios profundos da sociedade.
Encantos visuais e linguagem contida
Se o ritmo da narrativa pode parecer frio, há momentos de brilho no romance, especialmente nas elucubrações da paciente número 4, que substituem o silêncio do narrador quanto ele se cala. A imagética das paisagens e a sugestão de uma experiência de prazer que liberta mulheres antes dominadas pela necessidade adicionam textura à história, ao mesmo tempo que destacam a tensão entre o mundo interior e a realidade exterior.
Um romance que desperta mais do que satisfaz
“Ornamento” é, portanto, uma obra que provoca reflexão pela originalidade da ideia e pelas críticas embutidas, mas decepciona na execução. A prosa seca e as lacunas narrativas dificultam o engajamento e impedem que o leitor mergulhe mais profundamente na experiência das personagens. Resta a sensação de que um tema tão rico merecia uma abordagem mais sedutora e envolvente, capaz de explorar plenamente o potencial disruptivo da alegria não restrita a uma elite.