Protesto reúne centenas contra o fim da Rádio Eldorado
Em uma manhã marcada pela chuva leve, cerca de 400 pessoas se reuniram neste domingo, 3 de maio, na avenida Paulista, em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp). O motivo foi um forte protesto contra o encerramento das atividades da Rádio Eldorado, previsto para 15 de maio. Com cartazes, megafones e um profundo vínculo afetivo, ouvintes expressaram seu inconformismo com o fechamento da emissora que já soma quase sete décadas no ar.
A mobilização ganhou força com a presença de ouvintes, locutores e artistas, que juntos ressaltaram a importância histórica, cultural e afetiva da rádio. O encerramento da operação é resultado do fim da parceria entre o grupo Estado e a Fundação Brasil 2000, aliado às transformações no consumo de áudio no Brasil.
Mudanças e impacto no mercado de trabalho
A Rádio Eldorado, conhecida por sua programação educativa e cultural, teve de enfrentar o desafio da mudança de parceiros e a crescente migração do público para novos formatos de áudio. A faixa que a rádio ocupava será assumida pela Band a partir de 16 de maio. Estima-se que cerca de 60 profissionais serão desligados, embora o grupo anuncie estar avaliando a possibilidade de realocar parte da equipe.
Esses cortes não passam despercebidos pela comunidade que se formou em torno da rádio, composta por ouvintes fiéis e profissionais dedicados que veem na Eldorado um espaço de liberdade editorial e de promoção cultural.
Mobilização popular e petições em destaque
A artista Nina Vogel foi uma das organizadoras do protesto e criou um abaixo-assinado que ganhou rápida adesão nas redes sociais. A petição na plataforma Change.org já ultrapassa 15 mil assinaturas somando diferentes esforços para tentar reverter o fechamento da rádio. A repercussão na internet revela o quanto a Eldorado é mais que uma rádio: é um patrimônio cultural valioso para muitos brasileiros.
Nina enfatiza o valor imaterial da rádio, apontando sua função pedagógica e social ao formar ouvintes críticos e atentos à diversidade cultural do país.
Apoio político e propostas alternativas
O vereador Nabil Bonduki, do PT, manifestou seu apoio à luta pela sobrevivência da Eldorado. Ele destacou a importância da emissora para a preservação da memória cultural, qualidade musical e liberdade de expressão. Bonduki sugeriu um modelo de gestão comunitária e sem fins lucrativos como alternativa para manter a rádio no ar, envolvendo diretamente os ouvintes e a sociedade civil.
Essa proposta busca resgatar o papel histórico da Eldorado e valorizar sua função educativa na radiodifusão brasileira.
Vozes de quem faz a Eldorado
Durante o protesto, vários apresentadores se revezaram para dar voz à mobilização. Paula Lima, Leandro Cacossi, Felipe Tellis, Baba Vacaro, André Góis e Roberta Martinelli foram alguns dos nomes que se destacaram. Martinelli, por sua vez, ressaltou a liberdade editorial da rádio, que permite formatos experimentais e programas culturais profundos, como o de literatura.
A rádio se diferencia pela autenticidade e pela proximidade com os ouvintes, um diferencial cada vez mais raro no cenário midiático atual.
Ouvintes relatam relação afetiva e acolhedora
O apelo emocional da Eldorado se revela nas histórias pessoais de seus ouvintes. Eliana Mariani, assistente social de 59 anos, conta como a rádio foi um suporte fundamental durante seu tratamento contra o câncer em plena pandemia de Covid-19. Para ela, as vozes e a programação foram uma companhia acolhedora e uma fonte de conforto.
O sentimento de comunidade é intenso, com grupos de WhatsApp onde centenas de ouvintes debatem programas, organizam encontros e compartilham experiências. A rádio cria laços que vão além da música, impactando diretamente a vida de seu público.
A liberdade editorial como diferencial
Um dos gritos mais ouvidos no protesto foi “Não é algoritmo. É Eldorado”, uma frase que simboliza a essência da rádio. Baba Vacaro, que comanda o programa “Navega”, reforça que a Eldorado valoriza a sensibilidade e a autonomia dos locutores, permitindo que eles escolham seu repertório e conteúdo livremente.
Essa liberdade cria programas com alma, gerando uma experiência única para o ouvinte, que não encontra em outras emissoras.
Um legado difícil de substituir
Para Pedro Roberto Evangelista, ouvinte fiel há 45 anos, a Eldorado representa uma experiência única e insubstituível. Ele recorda com emoção sua participação no programa “Sunrise” e lamenta o vazio que o fechamento da rádio pode deixar no cenário cultural brasileiro.
A despedida da Eldorado significa a perda de um espaço cultural significativo, que foi construído ao longo de quase 70 anos com dedicação e paixão de profissionais e ouvintes. A mobilização e o debate em torno do seu futuro refletem o desejo coletivo de preservar não apenas uma rádio, mas uma instituição que participa da identidade cultural do país.