Protesto do Pussy Riot marca abertura da Bienal de Veneza 2026
De forma contundente, manifestantes liderados pelo coletivo punk Pussy Riot realizaram um protesto em frente ao pavilhão russo na abertura da Bienal de Veneza, na Itália. O ato, realizado na última quarta-feira, mobilizou dezenas de ativistas que expressaram sua oposição à presença da Rússia no maior evento de arte contemporânea do mundo. Com canções de protesto, sinalizadores cor-de-rosa e a icônica balaclava rosa choque, o grupo buscou chamar atenção para a guerra em curso entre Rússia e Ucrânia.
Contexto político e tensões na Bienal
A presença da delegação russa na Bienal vinha gerando intensa controvérsia desde o anúncio de seu retorno à mostra, após um hiato iniciado em 2022 com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Países vizinhos, especialmente a Letônia, manifestaram forte oposição, incluindo protestos simultâneos e declarações oficiais. O governo letão chegou a declarar membros da equipe russa como persona non grata, refletindo a tensão política que envolve o evento.
Impactos internos e renúncia do júri
A decisão dos organizadores da Bienal de manter o pavilhão russo aberto provocou uma crise interna significativa. Artistas e curadores emitiram uma carta aberta contra a participação russa, o que levou à inédita renúncia do corpo de jurados do prêmio Leão de Ouro. Pela primeira vez em mais de um século, o prêmio será escolhido pelo público, enquanto a União Europeia reduziu em €2 milhões o financiamento para a próxima edição, um corte relevante que reflete a divisão causada pela participação da Rússia.
Controvérsia sobre a direção artística
Outro ponto delicado da edição 2026 é a direção artística do pavilhão russo, composta por figuras ligadas diretamente ao governo e indústria bélica do país. Anastasia Karneeva, filha de um alto executivo da Rostec, fabricante estatal de armas, é diretora artística, e Ekaterina Vinokurova, ligada ao chanceler Serguei Lavrov, também integra a organização. Essa ligação suscita questionamentos sobre a independência e o real significado da exposição diante do cenário geopolítico.
Ambiente na exposição e resposta ao protesto
Apesar do protesto vibrante do Pussy Riot, o clima dentro do pavilhão manteve sua programação, com vigias nas portas e uma atmosfera que mesclava arte e entretenimento, incluindo DJs tocando música eletrônica e serviço de bar aberto logo pela manhã. A exposição, intitulada “The Tree Is Rooted in the Sky” (A Árvore Está Enraizada no Céu), apresenta obras de artistas e poetas russos, muitas delas refletindo questões de origem e identidade, num espaço quase vazio que parece ecoar a complexidade do momento.
Outras delegações e o debate sobre direitos humanos
Além da Rússia, a delegação israelense também foi alvo de protestos e controvérsias, liderados pela brasileira Solange Farkas. O grupo anunciou que países com líderes acusados de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional, como Israel e Rússia, não seriam considerados para os principais prêmios. Essa posição contribuiu para a renúncia do júri e amplia o debate ético e político dentro da Bienal.
Posicionamento oficial da Bienal de Veneza
Em entrevista coletiva, Pietrangelo Buttafuoco, presidente da Bienal, afirmou que o evento não se equipara a um tribunal e condenou tentativas de censura prévia. Ele ressaltou que o local é um espaço de encontro global, onde diferenças e contradições são aceitas e discutidas, destacando a autonomia da fundação que organiza o evento, mesmo diante da oposição política de figuras como a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni. A postura busca equilibrar liberdade artística, diálogo e o contexto delicado do presente.