Paulo Henriques Britto confronta a finitude em “Embora”
“Desta vez é para valer. Vai dar certo.” Com esta frase impactante, inicia-se “Embora”, o nono livro de poemas do consagrado poeta carioca Paulo Henriques Britto. A obra traz um soneto emblemático que já revela o tom metalinguístico e autoirônico presente em todo o livro. À primeira vista, parece afirmar a vitória do gesto poético, mas logo corrige: a criação persiste apesar da inevitabilidade do fim.
A temática central: o fim e a efemeridade da existência
O título “Embora” sintetiza a reflexão essencial do livro: a consciência de que tudo se esvai no tempo e que o esforço criativo é, de certo modo, inútil diante da finitude humana. Aos 74 anos, Britto encara essa realidade com a experiência adquirida ao longo da vida e da carreira, proposta comum entre artistas maduros. A obra não chega a ser um lamento, mas uma meditação sobre o sentido do existir, permeada por humor e autocrítica.
Estrutura e estilo poeticamente precisos
Fiel à sua preferência por formas fixas, Britto escolhe o soneto para inaugurar o livro, reafirmando seu desejo de escapar do verso livre que considera proclive ao banal. “Embora” é marcado pelo rigor formal, incluindo séries de poemas que funcionam como pequenas peças musicais, refletindo a melomania do autor. Contudo, a insistência no tema confere ao conjunto um tom monocórdio, diluindo o impacto em algumas passagens.
Poemas que se destacam no conjunto
Entre os poemas que ganham relevo estão “Mais uma Falange”, inspirado em um sonho e que combina o tom sombrio de pesadelo com a irreverência de um “tangolomango”, seguindo a tradicional redondilha maior. Outro destaque é “Natureza-morta III”, que celebra a alegria da matéria inanimada e se aproxima da poesia de Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto, com versos que sugerem uma vida leve e desapegada, como no aforismo “ser coisa não deve ser cansativo”.
Ascese e desejo: tensões internas do livro
O livro explora também a busca por uma espécie de ascese, próxima a ideais budistas, onde o desejo e a renúncia entram em conflito. A sequência “Do Desejo” revela o paradoxo do querer e do não querer, manifestando a complexidade emocional do poeta diante da vida e da morte. Essa tensão mantém o leitor atento, mesmo diante da repetição do tema central.
Diálogo erudito e referências literárias
Nas páginas finais, “Embora” se abre para um diálogo rico com autores como Emily Dickinson, Wallace Stevens, Samuel Beckett e Edimilson de Almeida Pereira. Britto, tradutor e professor, demonstra seu domínio do ofício ao compor “Quatro Glosas” que reverenciam seus mestres poéticos, trazendo frescor e erudição à obra.
Um autor que une erudição e leveza
Paulo Henriques Britto é reconhecido pela combinação rara entre erudição e humor, capaz de entregar textos que encantam leitores experientes e seduzem os menos habituados à poesia. Embora “Embora” possa parecer menos memorável que seus trabalhos anteriores, isso se deve à ausência do hedonismo sutil que caracteriza parte da sua obra — aquele toque que faz o poeta abrir a janela e, apesar dos pesares, contar com a chance de dias melhores.
Conclusão
“Embora” é um livro que não foge do confronto com a mortalidade, mas que o faz sem perder a graça e a ironia. Para quem acompanha a trajetória de Paulo Henriques Britto, oferece uma reflexão profunda sobre o tempo e o sentido da poesia, mesmo quando o fim parece inevitável. Um convite à escrita e à vida, apesar de tudo.