A peça “Edson” e o apagamento de corpos na história
O que resta de um corpo quando o Estado decide esquecê-lo? É essa tensão que “Edson”, solo do multiartista Matheus Macena, busca enfrentar em sua estreia no Sesc Vila Mariana, em 9 de maio. Escrito, dirigido e interpretado por Macena, o espetáculo parte do assassinato de Edson Luís de Lima Souto em 1968 para desvelar o silêncio e a repetição das tragédias políticas no Brasil.
Iniciada logo após a morte da vereadora Marielle Franco em 2018, a pesquisa que originou a peça trata o intervalo de 50 anos entre esses casos como um retorno da mesma face opressora do Brasil, que se mostra novamente para assolar a política contemporânea.
Um olhar para além dos padrões convencionais
“Edson” se distancia das tradicionais narrativas focadas na militância intelectual ou na classe média escolarizada, tão comuns em relatos sobre o regime militar. Matheus Macena volta seu foco para o trabalhador de base e para o emigrante nordestino e nortista, fragmentos da sociedade muitas vezes invisibilizados pela história oficial.
Após meses de pesquisa na Biblioteca Nacional, o artista reunii pequenas pistas da vida de Edson em recortes censurados, reportagens lacunares e notas de rodapé dos jornais da época, revelando a escassez de dados sobre sua família — um silêncio que Macena identifica como parte da opressão estrutural.
O palco como espaço de reconstrução e poesia
A montagem usa o palco para preencher lacunas que o arquivo histórico não pode suprir. Para Macena, enquanto os fatos são a base da peça, a poesia tem o papel de restituir a dignidade arrancada pela censura. Apenas no teatro, acredita ele, é possível substituir fatos por símbolos e abrir espaço para imaginação e emoção.
No palco, a direção musical e a guitarra de Pedro Nego entrelaçam as evidências da morte real com as possíveis vidas imaginadas de Edson. A linguagem cênica incorpora elementos de dança, musical e circo, numa expressão corporal híbrida e autoral, que amplia a dimensão do relato.
Reparação poética e complexidade humana
Mais que rememorar um mártir, “Edson” propõe uma reparação poética à trajetória de um jovem que viveu nas ruas e foi morto a queima-roupa. Macena valoriza a complexidade humana por trás da figura política, superando a redução histórica a uma simples estatística ou símbolo.
Representatividade além do corpo físico
Como artista negro e queer, Macena desafia os limites das pautas identitárias ao reclamar não apenas presença física, mas densidade psicológica para corpos historicamente marginalizados. Para ele, a verdadeira representatividade passa pela complexidade emocional das personagens, condição essencial para resgatar a humanidade de negros, LGBTQIA+ e indígenas.
Detalhes da temporada
“Edson” fica em cartaz no Sesc Vila Mariana, na Sala Corpo & Artes, até 6 de junho, com sessões às quartas e quintas às 20h, e aos sábados às 18h. Os ingressos custam R$ 50 (inteira) e podem ser adquiridos pelo site do Sesc ou presencialmente no local. É uma oportunidade para refletir sobre memória, silêncio e o poder da arte como resistência e reinvenção da história brasileira.