Marcello Quintanilha e o futebol: uma história de amargura e memória
Marcello Quintanilha, renomado quadrinista brasileiro, carrega um olhar distante do glamour do futebol. Para ele, o esporte era um tabu na infância, marcado pelo silêncio familiar e pela ausência de paixão clubística. A carreira do pai, Hélcio Carneiro Quintanilha, jogador do Canto do Rio Foot-Ball Club na década de 1950, foi interrompida por uma lesão precoce, gerando ressentimento e uma relação complicada com o futebol.
Essa narrativa pessoal e amarga se transforma na base para o álbum mais recente de Quintanilha, “Eldorado”. A obra une memórias familiares e histórias futebolísticas para contar, por meio dos quadrinhos, uma visão profunda sobre a formação social e cultural do Brasil contemporâneo.
“Eldorado”: um mosaico entre realidade e ficção
Lançado após o sucesso de “Escuta, Formosa Márcia”, premiado com o Jabuti e o Fauve d’Or, “Eldorado” retoma personagens e temáticas de obras anteriores de Quintanilha, especialmente relacionadas ao futebol, como “Luzes de Niterói”. A HQ mistura o microcosmo familiar com um olhar crítico sobre exclusão social e hierarquias impostas ao esporte no Brasil.
A estrutura da obra é dividida em duas partes: a primeira apresenta o cotidiano no armazém de Alício, pai do jovem Hélcio, nos anos 1950, entrelaçado com um crime de impacto duradouro. A segunda parte avança para 1974, período da ditadura militar, revelando o desenrolar da carreira do jogador e a sombra de um mistério policial não resolvido.
Futebol como metáfora da vida e crítica social
Quintanilha vê no futebol não apenas um esporte, mas um agente capaz de simbolizar as complexidades da vida e da história brasileira. Seu trampo evidencia como o jogo reflete os mecanismos de exclusão e hierarquias sociais que permeiam o país desde sua implementação.
O personagem principal, homônimo de seu pai, serve como uma figura arquetípica, representando momentos cruciais da transformação socioeconômica do Brasil pós-guerra. Essa mudança inclui desde a ascensão financeira até o colapso industrial causado pela reestruturação econômica atrelada à construção de Brasília.
Influências artísticas e escolhas narrativas
Marcello Quintanilha se aproxima do cinema neorrealista italiano na busca por retratar uma época marcada por conflitos sociais. Em “Eldorado”, ele resgata a atmosfera documental presente em obras como “Tungstênio” e “Talco de Vidro”, explorando as tensões e contradições do Brasil.
A escolha de inserir páginas de jornais dentro da narrativa reforça a ambientação e dialoga com a formação do autor, que teve seu primeiro contato com quadrinhos por meio das tiras em jornais. Essa conexão com a imprensa molda o estilo visual e narrativo da obra, conferindo um ritmo singular à leitura.
A plasticidade do movimento e o ritmo da narrativa
Quintanilha revela que seu conhecimento sobre anatomia humana e representação do movimento vem da observação detalhada de fotos de partidas de futebol dos anos 1970 e 1980. Esses registros inspiraram sua forma de criar quadros irregulares e desnivelados, que funcionam como unidades narrativas e marcas rítmicas, quase como fotografias autônomas.
Essa estrutura não só dá um aspecto dinâmico à HQ, como também reforça o tom documental, ainda que o autor enfatize que a ficção sempre domina a narrativa, assumindo o controle das rédeas da história.
Ficção e realidade: os dois lados da narrativa de “Eldorado”
A força de “Eldorado” está na combinação equilibrada entre fatos reais e invenções ficcionais. Enquanto o drama policial é completamente fruto da imaginação de Quintanilha, a trajetória futebolística do personagem principal é ancorada em experiências reais vividas por seu pai.
Esse casamento entre realidade e ficção permite que o quadrinista crie uma obra que transcende a mera autobiografia, transformando-se em uma reflexão mais ampla sobre o Brasil, suas transformações e seus impasses sociais, políticos e culturais.