Rosiska Darcy de Oliveira e sua fotobiografia única
A trajetória de Rosiska Darcy de Oliveira ganha vida em uma fotobiografia que é, acima de tudo, um presente coletivo. Produzida ao longo de dois anos por amigas próximas, entre elas a ex-ministra Izabella Teixeira, a jornalista Cristina Aragão e a historiadora Maria Celeste Garcia, a obra conta muito mais que a história de uma mulher — revela a passagem profunda de uma geração pelo tempo.
Um olhar íntimo e coletivo
As imagens da fotobiografia não seguem o padrão tradicional de legendas. Em vez disso, as fotografias são acompanhadas por trechos selecionados de textos escritos pela autora ao longo das décadas. Essa combinação cria uma experiência emotiva, que expõe o rosto humano por trás da escritora imortal da Academia Brasileira de Letras. Muitas fotos são registros familiares e privados, majoritariamente clicados por seu marido, o diplomata Miguel Darcy de Oliveira, com quem Rosiska está casada há mais de meio século.
Movimentos, exílios e encontros decisivos
A obra destaca fases cruciais de sua vida, incluindo seu ativismo feminista, o exílio na Suíça imposto pela ditadura militar e a colaboração próxima com o educador Paulo Freire. Mas exibe também suas paixões cotidianas, como o hábito de frequentar cafeterias, os carnavais animados e os laços profundos com irmãos e amigos. Curiosamente, figuras emblemáticas como Fernanda Montenegro e Gilberto Gil, hoje seus colegas na ABL, já eram seus companheiros na juventude.
A história de uma geração marcada por mudanças
Mais que uma biografia pessoal, o livro é uma narrativa de um grupo que nasceu sob o impacto da bomba atômica e do Holocausto, viveu ditaduras, caminhou com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e convive hoje com o avanço da inteligência artificial. “Fomos testados na capacidade de adaptação e saímos bem”, afirma Rosiska, que aos 82 anos enxerga um Brasil mais consciente sobre racismo, diversidade sexual e presença indígena, ainda que com ceticismo em relação à política oficial.
Mulheres em movimento constante
Para Rosiska Darcy de Oliveira, a evolução das mulheres simboliza a transformação social mais significativa. “Quando eu era jovem, havia um movimento feminista. Hoje, as mulheres estão em movimento constante”, destaca. Essa força viva a mantém presente e ativa na Academia Brasileira de Letras, onde edita a Revista Brasileira, ignorando limitações impostas pela idade e rejeitando o etarismo com naturalidade.
Vida ativa diante da finitude
Apesar da consciência da finitude, a escritora rejeita a ideia de aposentadoria ou recolhimento. Inspirada pelo gesto de seu amigo Antônio Cicero, conhecido pela decisão pela morte assistida, ela declara que faz apenas o que deseja enquanto quiser. “Essa é a minha biografia até aqui”, resume, com uma energia que desafia o tempo e reafirma seu compromisso com a arte, a literatura e a luta social.