Varejão e Paulino apresentam obra sobre a complexa beleza de Veneza em exposição na Ilustrada

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A arte que revela um Brasil entre ruínas e resistência

Na Bienal de Veneza de 2026, as obras de Adriana Varejão e Rosana Paulino emergem como um potente retrato das contradições brasileiras. No recém-restaurado pavilhão do Brasil, suas criações dialogam entre si, expressando um país marcado pela violência histórica, pela desigualdade social e pela beleza perturbadora. Os trabalhos expõem a fragilidade de nossa identidade, suspensa entre ruínas e a promessa de reconstrução.

O simbolismo do barroco e a presença da ruína

As pinturas de Varejão, tensas e dramáticas, parecem azulejos trincados, presas no teto do pavilhão sob vigas de concreto. Elas expressam uma sensação constante de desabamento iminente. Rosana Paulino contrapõe com um muro de cimento inacabado, cujas ferragens expostas sustentam imagens de escravizados, devolvendo ao público um olhar pesado de memória e denúncia. Nesse diálogo artístico, a ruína arquitetada é metáfora de um projeto de nação em conflito consigo mesmo.

Plantas tóxicas e a dualidade brasileira

No vão que divide o espaço, plantas exuberantes e venenosas ocupam lugar de destaque. Elas simbolizam a resistência e o corpo fechado frente às ameaças cotidianas. Essa exuberância verde revela um Brasil de duplos e contrastes dolorosos, onde o histórico colonial ainda permeia a realidade atual, com suas feridas abertas invisíveis e o esplendor do barroco azul e branco encobrindo mazelas profundas.

A carne exposta: sangue e violência à flor da pele

Ao longo de sua trajetória, Varejão tematiza a carne, o sangue e as vísceras escapando de superfícies aparentemente imaculadas. Suas obras são como feridas aberto, revelando a tensão que sustenta o edifício social. Na Bienal, uma instalação que se espalha pelas paredes mistura vermelhos intensos, dourados e verdes, sugerindo que mesmo a dor e o saque histórico podem servir de base para um futuro incerto, mas ainda possível.

Costuras da memória e denúncia racial em Paulino

Nos painéis delicados de Rosana Paulino, imagens fotográficas costuradas a desenhos trazem crânios, bacias e cenas da escravidão sob azulejos brancos e azuis. No centro, o “Atlântico vermelho” evoca a rota dos navios negreiros e a brutalidade oculta atrás da falsa narrativa da democracia racial brasileira. A linha escarlate que costura essas imagens pulsa como sangue e resistência, denunciando cicatrizes sociais profundas.

A promessa da vida e o projeto da casa

Fora do pavilhão, Paulino apresenta suas “tecelãs”, figuras femininas-inseto em processo de construção de casulos, simbolizando a força vital emergente do próprio corpo. Cerca de cem dessas peças espalham-se pela galeria inicial, configurando uma imagem poderosa de criação e renovação. É a arte apontando para um recomeço, uma promessa de vida mesmo em meio às ruínas históricas e sociais.

Um olhar essencial para o Brasil contemporâneo

A mostra orquestrada por Diane Lima não só revela um cenário artístico de alto impacto, mas reflete a complexidade brasileira: um país marcado por destruições calculadas, contradições severas e uma história colonial ainda pulsando em presente. As obras de Varejão e Paulino convidam o espectador a reconhecer essa carne exposta, a dor da memória, e sobretudo a necessidade urgente de costura, cura e reconstrução social. Esse é o Brasil que se desdobra em Veneza, entre a beleza e o veneno da história.

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