Série Os Testamentos aborda a realidade de Gilead sob a perspectiva de uma adolescente

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Margaret Atwood levou 34 anos para lançar “Os Testamentos”, em 2019, como sequência de seu estrondoso “O Conto da Aia”. O livro original, de 1985, ganhou nova relevância com a ascensão do conservadorismo populista de inspiração messiânica, e sua transposição para as telas na série homônima que foi ao ar de 2017 a 2025 virou um marco na cultura pop e no discurso social dos anos 2020.

Com o sucesso dessa adaptação e a recente volta de Donald Trump ao poder, parece natural que a sequência tenha chegado às telas tão mais depressa.

Isso exigiu algumas adaptações, sempre um risco quando se trata de obras queridas. Nos livros, há um salto de 15 anos entre os acontecimentos de um e de outro, enquanto na nova série o intervalo transcorrido é de quatro anos, o que exigiu reformular alguns personagens. Pairava também a dúvida sobre o fôlego da história, já que as seis temporadas de “O Conto da Aia” esgarçaram o enredo de Atwood.

Se os três episódios que foram ao ar na estreia, em 8 de abril, forem amostra razoável da temporada, essas dúvidas podem ser enterradas. A nova empreitada do roteirista e produtor Bruce Miller é sublime, guardando méritos do original e remodelando-o com a infusão de delicadeza e uma leve doçura que nunca deram as caras na série-mãe, mas aqui são permitidas porque a história é narrada principalmente do ponto de vista de duas adolescentes.

E eis aí o grande achado da série: o elenco. Agnes, a filha de June que ficou em Gilead —uma teocracia fictícia erguida onde foram os EUA na qual as mulheres são apenas instrumentos de reprodução— é vivida por Chase Infiniti, que acaba de brilhar no oscarizado “Uma Batalha Após a Outra” e ascende como principal nome de sua geração.

O papel de Daisy, uma infiltrada da resistência entre as ultracontroladas filhas de comandantes, coube a Lucy Halliday, cuja voltagem dramática é igualmente cativante. Ann Dowd volta como a ambígua tia Lydia, e Elisabeth Moss ressurge como June nas cenas que mostram a vida pregressa de Daisy em Toronto.

Novamente, Atwood se mostra assustadoramente presciente ao contar a história pela voz das duas meninas e debruçar-se sobre o comportamento das adolescentes de Gilead.

Retratadas com uma mistura de ingenuidade e crueldade, talhadas para ter como aspiração máxima, e preferencialmente única, o casamento e a maternidade, as personagens evocam o avanço corrente do conservadorismo entre os jovens. Não é difícil imaginar algumas delas surgindo em vídeos que criticam o feminismo sem nem sequer saberem o que é feminismo ou pregando uma vida de submissão ao marido em troca de contas pagas.

Miller consegue costurar essa crítica, ao menos nesses episódios iniciais, com uma delicadeza que muitas vezes lhe faltou em “O Conto da Aia”. Não que a mensagem seja sutil ou que o sangue tenha sumido de cena, mas há um misto de ansiedade e esperança que revigora a história, contada de forma epistolar (como o livro) em um tom de jornada de amadurecimento a partir da amizade entre as duas.

Direção de arte e figurino continuam geniais (entre ecos da estética “clean girl” e inspiração puritana, novamente devem entrar para a iconografia pop).

Para quem temia a estreia, é um inesperado alento.


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