Eu gostaria que esse episódio tivesse um acontecimento verdadeiramente marcante para dar o tom de meio da temporada, algo que, aparentemente, só virá no próximo episódio, já caindo no mês final desse ano inaugural do show. Nos comentários de críticas anteriores, estive conversando sobre o quanto essa série deve ter (ou, pelo menos, deveria…) apenas uma temporada, mas pelo andar da carruagem e ritmo bem novelão que a produção tem tomado, vejo que não seria nada difícil esticarem esse enredo até dele não restar mais nada. De certa forma, fizeram isso com The Handmaid’s Tale, que deveria ter tido três ou quatro anos de trama e conseguiram inventar roteiro até não poder mais, perigando descaracterizar o programa. Aqui, pode acontecer a mesma coisa. Só que o perigo ainda é maior porque o escopo, pelo menos até esse momento, não permite que Os Testamentos avance por muito tempo sem parecer um diário cansativo e chato de como ser uma garota passando por lavagem cerebral e doutrinação desde o momento do seu nascimento em Gilead. Espero que não cheguemos a esse ponto.
O Baile é um episódio bem interessante em alguns aspectos. Ele não deixa morrer o mote de Chá Verde, referente ao abuso sexual sofrido por Agnes, e mostra até mesmo o resultado traumático que isso gerou nela, mesmo estando desacordada quando tudo aconteceu. Como eu tinha comentado na crítica passada, a amizade dela com Becka foi afetada, ao menos num plano bem imediato, porque Agnes não sabe exatamente como agir ou o que sentir. É uma linha dramática muito forte, mas que não deve durar por muito tempo. A abordagem para o casamento das meninas é outra coisa que acho que deve acabar quanto antes. Sinceramente? Já sinto o peso da repetição. A garota, ao final do episódio, muito feliz por ter menstruado pela primeira vez, foi um exemplo disso. Quando o tema foi introduzido na série, teve seu peso, seu tratamento, seu ritual. Agora, perdeu metade da força que teve, porque mesmo no contexto de Gilead, não é algo que se justifique como tendo tanto peso toda vez que acontecer. E a mesma coisa posso dizer do casamento.
Tenho a impressão de que o dia do casamento de Agnes será um ponto importante para a temporada, com algo de peso preparado para o dia. O problema disso é que já está ficando chato ter em destaque apenas uma camada de preparativos para “o grande dia”. Enquanto isso, o plot da revolução foi deixado de lado, com Daisy aparecendo somente em uma situação de destaque e um possível golpe, substituição armada ou (outra) derrocada de Tia Lydia surgindo no horizonte. Tia Vidala não está nada feliz com o que ouviu sobre a organização do baile e, somada ao convite que recebeu do Comandante, essa sensação deve crescer e se tornar a porta de uma substituição. Esses são momentos que trazem um abalo positivo para o avanço da temporada? Sim. Mas percebem como Os Testamentos anda sobre terreno frágil demais, disperso demais? O núcleo da série é bom, mas quando a gente analisa cada um de seus aspectos, há uma incerteza do funcionamento isolado deles, e basicamente a única coisa que dá vigor ao show é o lado dos rebeldes com a possibilidade de mudança daquela realidade, porque do contrário, seria melhor assistir àqueles vídeos afetadíssimos das tradwives no Youtube.
Enquanto escrevo, percebo o meu nível de incerteza em relação à série e o quanto estou dividido entre histórias que não são ruins e que possuem, em certos aspectos, grande potencial, e o prolongamento delas, vindo dos mesmos produtores de O Conto da Aia. O fato de termos passado por essa experiência antes talvez seja o responsável por esse sinal de alerta meio contraditório, mas é isso mesmo, por enquanto, não consigo adotar um único caminho diante da série. É aquela história: enquanto estiver funcionando majoritariamente bem, mesmo que não sejamos fãs de todo o contexto, seguimos assistindo com algum gosto!
Os Testamentos: Das Filhas de Gilead – 1X05: O Baile (The Testaments: Ball) — EUA, 15 de abril de 2026
Direção: Quyen Tran
Roteiro: Nate Burke, Sam Rubinek
Elenco: Chase Infiniti, Lucy Halliday, Mabel Li, Brad Alexander, Isolde Ardies, Rowan Blanchard, Mattea Conforti, Zarrin Darnell-Martin, Eva Foote, Kira Guloien, Shechinah Mpumlwana, Birva Pandya, Amy Seimetz, Ann Dowd, Nate Corddry, Charlie Carrick, Reed Diamond, Hattie Kragten, Randal Edwards, David Mortimer, Dan Mousseau, Aaron Schwartz, Steve Cumyn, Neil Girvan
Duração: 40 min.