No próximo domingo (26), o Teatro do Célia Helena abre suas portas para a quinta edição do Cena Transversa. O projeto, que já se consolidou no calendário da Escola Superior de Artes Célia Helena (ESCH), propõe um desafio prático: retirar a dramaturgia do isolamento do papel e entregá-la ao risco do palco. Através de nove cenas curtas, estudantes de Pós-graduação em Dramaturgia, Direção e Atuação se unem em um exercício onde a escrita é apenas o ponto de partida para um encontro com o corpo e o público.
Para quem escreve, o projeto funciona como um laboratório de desapego e descoberta. Samir Yazbek, coordenador da Pós-graduação em Dramaturgia, observa que essa passagem do texto à cena ocorre de maneira muito fluida, permitindo que o autor acompanhe os ensaios e continue mexendo na obra enquanto ela ganha vida. Para ele, essa dinâmica é essencial para que o autor em formação entenda que a dramaturgia é, acima de tudo, “uma literatura destinada à cena, com suas particularidades”, e que sua força se manifesta justamente no diálogo com as escolhas do elenco e da direção.
Nesse processo, o texto sofre uma transformação física. Laerte Mello, que coordena a Pós em Direção e Atuação, ressalta que o impacto do “outro” — seja o colega de sala ou o ator convidado — força o autor a ajustar o que está na forma puramente literária para o que ele chama de “forma falada”. Segundo Laerte, é nessa busca pela “embocadura” que os dramaturgos dão os retoques finais, percebendo, no contato direto com o palco, o que realmente funciona para o espectador.
A safra de textos desta edição reflete a diversidade de uma geração que transita entre o comentário social e a experimentação formal. Enquanto cenas como “A Cratera” (João Petroni) e “ALGOeRITMO” (Gustavo Teixeira Junqueira) mergulham em alegorias políticas e na lógica da tecnologia, outras obras exploram o luto, as relações familiares e a transição para a vida adulta.
Essa variedade é celebrada por Yazbek, que vê na “liberdade de criação uma condição inerente ao processo”, permitindo que os alunos testem os limites de seus próprios estilos. Laerte Mello reforça que, após cinco edições, não se busca uma “assinatura” única, mas sim um equilíbrio; os temas diversificados surgem naturalmente, já que os alunos vêm de diferentes partes do país, trazendo vivências que vão desde a crítica à misoginia até o lúdico.
No centro dessa engrenagem está o papel do diretor, que atua como um tradutor da palavra escrita. Rodrigo Audi, também coordenador de Direção e Atuação, define o trabalho como uma conversa entre artistas. Para ele, o desafio de dirigir textos inéditos de estudantes é uma oportunidade de aplicar ferramentas práticas para desenvolver um estilo próprio. Audi defende que a encenação é uma “concretização da palavra no palco”, uma construção feita a muitas mãos — de atores a figurinistas — que redefine constantemente a noção de autoria no teatro.
Para Samir Yazbek, essa visão colaborativa é a chave para a sobrevivência profissional no cenário atual. Ele defende uma criação teatral que não seja hierárquica, mas sim “multifocal e multifatorial”, colocando a dramaturgia no centro do fenômeno sem colocá-la acima dos demais elementos. O Cena Transversa, portanto, não é apenas uma mostra de cenas, mas um dispositivo pedagógico que prova que o teatro só se completa, de fato, no tempo da cena e no encontro com o público.
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Data: 26 de abril de 2026, das 16h às 20h30
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Local: Teatro do Célia Helena (Av. São Gabriel, 444 — Itaim Bibi, SP)
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Entrada: Gratuita (distribuição de senhas conforme disponibilidade)
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