Um filme que desafia os limites entre realidade e ficção
“Mambembe”, dirigido por Fabio Meira, surpreende ao mesclar ficção e documentário em uma narrativa rica e complexa sobre o universo do circo no sertão nordestino. O filme não se prende a fórmulas tradicionais e convida o espectador a acompanhar uma jornada de descobertas, reencontros e ressignificações que questionam o próprio conceito de “filmar o real”. Com um projeto iniciado em 2010 e retomado em 2024, essa obra revela uma maturidade nova a partir de um material amadurecido pelo tempo.
Personagens entrelaçados entre vida e interpretação
A trama apresenta Ruy, um topógrafo vivido por Murilo Grossi, que se envolve com três mulheres do circo: Índia Morena, Madona Show e Jéssica. Esta última, interpretada por Dandara Guerra (filha de Ruy Guerra e Claudia Ohana), reflete uma história real de fuga familiar e reencontro no mundo circense. O diretor cria uma rede de duplicidades que mistura personagens reais e fictícios, pessoas como eram e como seriam, entrelaçando passado e presente de forma singular.
Metalinguagem e o filme dentro do filme
“Mambembe” é, na essência, um filme sobre outro filme: um documentário reconstruído a partir de uma ficção inicialmente abandonada. A experiência de resgatar imagens, sonhos e memórias das mulheres do circo gera fortes emoções e revela as transformações pessoais e artísticas ocorridas ao longo dos anos. Essa abordagem metalinguística instiga reflexões profundas sobre a razão de ser do cinema e o processo de criação.
Referências e diálogos com clássicos do cinema brasileiro
A obra guarda diálogo com marcos importantes do cinema documental brasileiro, como “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho, no resgate do abandonado e na interação entre diretor e personagens. Também lembra “Já Visto Jamais Visto”, de Andrea Tonacci, pela reinterpretação das imagens com toque ensaístico, porém menos rígido. Essas referências enriquecem a narrativa, ampliando seu alcance artístico e intelectual.
Insegurança e experimentação no processo criativo
Fragmentos de bastidores aparecem no filme, revelando momentos de tensão entre o diretor e os atores, práticas de direção e dúvidas criativas. Essas cenas realçam a imaturidade de Meira ao iniciar o projeto e ajudam a entender o abandono temporário do filme. Ao revisitá-lo, o diretor não apenas conclui a obra, mas também transforma essas fragilidades em força narrativa, imprimindo uma delicadeza rara ao tratamento dos personagens.
Entre o conflito e a delicadeza de um novo olhar
Um dos momentos mais provocativos é a cena ficcional em que Ruy força Madona a um contato sexual indesejado, criando uma tensão desconfortável. A ressignificação posterior dessa cena revela a capacidade do filme de corrigir seu próprio passado, suprimindo o que parecia incompatível com o tom geral para assegurar uma abordagem mais sensível e respeitosa. Esse contraponto contribui para a riqueza emotiva e estética de “Mambembe”.
O ciclo do circo e do cinema se fechando ou recomeçando
A pesquisa de Fabio Meira no universo dos trabalhadores mambembes já havia gerado o curta “Hoje Tem Alegria” (2011), que destacava sua sensibilidade para contar essas histórias. O lançamento do longa pode representar tanto o fechamento de um ciclo quanto o início de uma nova fase na carreira do diretor, reafirmando seu olhar atento e apaixonado por personagens à margem e por narrativas que desafiam categorizações tradicionais no cinema brasileiro contemporâneo.