Análise do Primeiro Episódio de O Bem-Amado (1973): Contexto e Relevância da Série Clássica

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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna semanal dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 1
Número de episódios: 178
Período de exibição: 22 de janeiro a 3 de outubro de 1973
Há continuação ou reboot?: Sim. Uma série em 1980, um filme em 2010 e uma adaptação mexicana em 2017.

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Apresentando-se loquazmente, talqualmente um coronel que exalta a frescura dos ares de sua amada cidade, o primeiro capítulo de O Bem-Amado traz a hilária verborragia que viria acarajeizar toda a teledramaturgia brasileira. Dias Gomes adaptou sua peça Odorico, o Bem-Amado e os Mistérios do Amor e da Morte, escrita em 1962, para a primeira novela produzida inteiramente em cores no Brasil, com gravações iniciadas em novembro de 1972, cenas externas rodadas em Salvador e toda a trama fixada no bairro de Sepetiba, no Rio de Janeiro, sob a direção de Régis Cardoso. A transposição da peça para a televisão exigiu acréscimos consideráveis de personagens que não existiam no texto original, ampliando o escopo da sátira política para pessoas em diferentes posições e ideias em relação à cidade, à política, à religião e ao próprio protagonista. Paulo Gracindo dá vida a esse icônico personagem com uma naturalidade trepidante e dinamitosa, tendo neste primeiro episódio a apresentação geral de seu personagem e, ao que parece, sua única promessa palpável de campanha: a construção de um cemitério para a cidade. Até então, os cidadãos de Sucupira carregavam seus defuntos numa escravagem mortuária até os municípios vizinhos, e a nova Era daquelas terras, sob as ordens do bravo prefeito, garantiria um campo santo para todos dormirem o seu sono eterno num chão familiarístico.

Produzida durante os anos de chumbo da ditadura militar, a novela precisou ter seus capítulos editados antecipadamente e enviados à censura federal para aprovação, o que faz o primeiro capítulo investir mais no estabelecimento dos tipos cômicos e das relações de poder locais do que na dosagem explícita do tom político. A fotografia traz cenas com cores extremamente saturadas (quando a banda se apresenta, os músicos parecem ter um Sol inteiro refletindo no uniforme), figurinos chamativos (por diversos motivos) e cenários que, propositalmente ou não, reforçavam a ideia de que Sucupira era uma localidade suspensa no tempo, parte de um Brasil que pode ser identificado em qualquer lugar e em qualquer época, o que ajuda a aplicar as críticas e alfinetadelas ao mundinho do espectador. O ritmo, porém, traz problemas que já conhecemos de outras novelas daquela safra (início dos anos 70), com muitos planos paradões, acompanhados somente por música ou apenas som ambiente; trechos musicais que se estendem pelas cenas sem trazer nada de novo ou importante e ações que demoram mais do que deveriam para se justificar narrativamente, como o morto sendo carregado na rede ou a banda tocando na praça sem pressa alguma.

A construção de Sucupira traz os caminhos dramáticos mais conhecidos dos becos políticos que povoam as sátiras, algo também recorrente em novelas brasileiras que adotam a relação entre figuras de autoridade e população. Dias Gomes sabia que o coronelismo nordestino era a espelhice perfeita do autoritarismo vigente no país, e Odorico encarna essa farsa com uma retórica de palavras inventadas e citações falsas que ninguém em Sucupira sequer pensava em questionar. A trilha de Toquinho e Vinícius de Moraes pontua tudo com canções compostas sob encomenda, e o tema de abertura, que substituiu Paiol de Pólvora após veto da censura (embora essa canção toque em uma cena, no meio do capítulo), dá um quê de elegância e brasilidade que contrasta e ao mesmo tempo complementa o tom do enredo, ainda marcado por muitos cantos afro-brasileiros e batuques. Na última sequência, Odorico descobre que a filha Telma está doente, e Gracindo explora essa preocupação paterna com olhares calculados, como se mesmo o afeto familiar fosse um lance de xadrez que poderia ser usado ou barrado com base em seus interesses políticos. Esse encerramento reforça o mau-caratismo do futuro prefeito, mas está incomodamente separado do corpo da trama, cumprindo menos a tarefa de gerar curiosidade sobre a história principal, justamente no desfecho, e mais a de adiantar um aspecto do ego de Odorico que só teria desenvolvimento pleno nos capítulos seguintes.

Odorico é, já nestes quarenta e dois minutos iniciais, a síntese de uma linhagem política brasileira que Dias Gomes conhecia desde as entranhas do rádio baiano, dos anos 1940, aperfeiçoada em peças como O Pagador de Promessas e A Revolução dos Beatos: a do líder cujo falatório puxassaquista de si mesmo é inversamente proporcional à sua ética, e cuja popularidade se alimenta do medo que gera nos outros; do ridículo de seus atos em público e do apoio de gente tão podre quanto, interessada em lucrar com os desmandes. Uma verdadeira situação onde os finalmentes justificam os não obstantes. Pois é, meu povo: emboramente a tecnologia e o ritmo do Brasil tenham mudado, os Odoricos de terno caro e fala abilolada continuam ocupando praças, palanques e telas, com a mesma confabulância mentirenta de sempre, vendendo cemitérios que ninguém pediu e prometendo coisas que jamais haverão de cumprir.

O Bem-Amado (1973) – Capítulo 1 (Brasil, 22 de janeiro de 1973)
Criação: Dias Gomes
Direção: Régis Cardoso
Roteiro: Dias Gomes
Elenco: Paulo Gracindo, Lima Duarte, Emiliano Queiroz, Jardel Filho, Sandra Bréa, Ida Gomes, Dorinha Duval, Dirce Migliaccio, Carlos Eduardo Dolabella, Gracindo Júnior, Maria Cláudia, Zilka Salaberry, Rogério Fróes, Ana Ariel, Milton Gonçalves, Ruth de Souza, João Paulo Adour, Dilma Lóes, André Valli
Duração: 42 min.





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