Análise crítica do filme Ilsa, a Guardiã Perversa da SS: uma abordagem do terror e controvérsia histórica

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Manifestações artísticas, sejam de que natureza forem, não têm e não devem ter limitações, mas isso não significa que o público precisa gostar dessa ou daquela obra somente porque ela é, porque ela existe, porque ela foi criada por alguém. A apreciação da arte é fundamentalmente subjetiva e gostar ou não dependerá de uma série de fatores que até podem ter elementos objetivos, mas que sempre estarão alicerçadas nas experiências pessoais de quem vê, lê ou escuta determinada criação. Faço esse preâmbulo pois Ilsa, a Guardiã Perversa da SS, filme canadense de 1975 banido até hoje em diversos países e que angariou certo status cult ao longo dos anos, além de ter transformado a atriz  Dyanne Thorne em símbolo sexual que repetiria esse mesmo papel de mulher voluptuosa em outros três filmes na mesma década, não é uma obra de fácil digestão, isso só para usar um eufemismo.

Como diversas produções setentistas independentes, o longa é um exploitation movie de duas subcategorias, o sexploitation e o nazisploitation, ou seja, uma obra de carga sexual exacerbada como uma pornochanchada brasileira da mesma época, só que no contexto do nazismo, durante a Segunda Guerra Mundial. A personagem titular, vivida por Thorne, é uma comandante sádica e insaciável de um campo de prisioneiros nazista que faz terríveis experiências com seus cativos, em papel que funde os infames Ilse Koch, que cometia atrocidades quando seu marido era comandante de Buchenwald, e Josef Mengele, o Anjo da Morte, que viria a falecer em 1967, em São Paulo. Entre uma tortura e outra, o que inclui castrações, mastectomias, infecção proposital de prisioneiros com vírus, Ilsa transa uma noite com cada prisioneiro, frustrando-se quando ele ejacula e não consegue prosseguir com o ato sexual, o que a leva a ataques mortais de fúria. No entanto, isso muda quando um prisioneiro de “aparência ariana”, que fala alemão fluentemente e que é capaz de controlar quando exatamente ejacula, surge em sua vida, proporcionando-lhe horas de prazer.

É, claro, uma premissa depravada não por ser o que é, mas sim pelo contexto em que está inserida, a ponto de o longa começar com uma carta do produtor Herman Traegar tentando justificar seus excessos e afirmando que muito do que será mostrado é baseado em abusos documentados. Mesmo que os nazistas da vida real tenham cometido atrocidades muito maiores e em escala industrial, a questão maior é a exploração disso pelo filme, que transforma um assunto sério e pesado em uma pornochanchada que foca em peitos avantajados das personagens femininas – inclusive das prisioneiras -, potência sexual e tortura que, mesmo dando cabo dos nazistas ao final, inevitavelmente coloca a protagonista em uma espécie de pedestal idólatra doentio. Alguns até podem tentar argumentar que Ilsa, a Guardiã Perversa da SS não é muito diferente de outras obras que fazem sátira do nazismo como O Grande Ditator, Primavera para Hitler, Bastardos Inglórios e Jojo Rabbit, mas esse paralelo é completamente equivocado e não por questões de técnica cinematográfica ou elementos como atuações e roteiro, mas sim porque o longa capitaneado por Don Edmonds faz da dor objetivamente causada por todo um sistema político um espetáculo de torture porn sem nenhuma qualidade compensatória, nada que efetivamente indique ao espectador que os horrores do nazismo não deveriam ser reduzidos à pura sexualização para adolescentes (e adultos) babões.

Mas, claro, arte é subjetiva e minha afirmação categórica sobre o que o filme não é – ou é – dependerá de quem o assiste e do nível de tolerância para abordagens de mau gosto extremo como se vê aqui. O que eu vejo em Ilsa, a Guardiã Perversa da SS ultrapassa até mesmo o que um exploitation movie é e olha que eu já assisti as mais diversas barbaridades desse gênero que trafega do blaxploitation ao sexploitation muito facilmente, com categorias excêntricas como nunsploitation, WIP (women in prison, ou “mulheres em prisão”) e até bruceploitation em que Bruce Lee especificamente é explorado, nesse meio. O longa de Edmonds, com roteiro de John C. W. Saxton, que assinou como Jonah Royston (um dos vários artistas dessa produção que usou apelidos, o que deixa bem claro a vergonha que sentiram diante desse indesculpável absurdo) é o choque pelo choque apenas, é o nazismo sendo usado como instrumento de doentia masturbação ocular que, sei bem, tem seu público, pois Thorne, como disse, voltaria mais três vezes a esse mesmo papel, ainda que não necessariamente batizada de Ilsa. O que fica, ao final desse nazisploitation desavergonhado, é aquela intensa vontade de escovar os olhos com água sanitária.

Ilsa, a Guardiã Perversa da SS (Ilsa, She Wolf of the SS – Canadá, 1975)
Direção: Don Edmonds
Roteiro: Jonah Royston (John C. W. Saxton)
Elenco: Dyanne Thorne, Gregory Knoph, Tony Mumolo, George Buck Flower, Maria Marx, Nicolle Riddell, Jo Jo Deville, Sandy Richman, Rodina Keeler, Richard Kennedy, Lance Marshall, Jacqueline Giroux, Uschi Digard, Colleen Brennan, Sandy Dempsey
Duração: 96 min.





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